terça-feira, 26 de maio de 2015

BERGEN-BELSEN

Enzo Carlo Barrocco

Foto: National Archives and Records Administration, College Park, Md.- EUA






















Tudo era sofrimento
Em dores se contorciam
Eram estrelas apagadas
Nas fímbrias dilaceradas
Das horas amarguradas
As forças  se consumiam.

Dentro das câmaras frias
Porém, o que mais se ouviam
Eram prantos abafados
Gritos dilacerados
Dos corpos horrorizados
Com a morte que se entrevia.

quarta-feira, 13 de maio de 2015

A POESIA ANGOLANA DE JOÃO MAIMONA

O POEMA...




AS MURALHAS DA NOITE



         A mão ia para as costas da madrugada.

         As mulheres estendiam as janelas da alegria

         nos ouvidos onde não se apagavam as alegrias.



Entre os dentes do mar acendiam-se braços.



         Os dias namoravam sob a barca do espelho.

         Havia uma chuva de barcos enquanto o dia tossia.

         E da chuva de barcos chegavam colchões,

         camas, cadeiras, manadas de estradas perdidas

         onde cantavam soldados de capacetes

         por pintar no coração da meia-noite.



         Eram os barcos que guardavam as muralhas

         da noite que a mão ouvia nas costas

da madrugada entre os dentes do mar.






















...E O POETA

João Maimona, angolano de Quibocolo, município de Maquela do Zombo, poeta, ensaísta, crítico literário e político, no convés da fragata desde 1955, devido a perseguições teve que fugir com a família para a República do Zaire em 1961. Em Kinshasa, em 1975, ingressou na Faculdade de Ciências, tendo estudado Humanidades Científicas regressando a Angola em 1976. Algum tempo depois, fixou residência em Huambo, onde se licenciou em Medicina Veterinária. O poeta é diplomado em estudos superiores especializados em virologia médica e epidemiologia animal, pelo Instituto Pasteur de Paris e pela École Nationale Vétérinaire d´Alfort, na França. Maimona atualmente é membro-fundador da Brigada Jovem de Literatura do Huambo e membro da União dos Escritores Angolanos. Incansável combatente cultural mostrando para o mundo a literatura e arte angolanas.  

segunda-feira, 11 de maio de 2015

A CARGA INUSITADA

Conto
por Enzo Carlo Barrocco























Salvador era o motorista da ambulância de uma das cidades da Zona do Salgado e, certa época, diariamente trazia o pessoal enfermo para Belém. Não falhava um dia sequer. Quando passava pela barreira da Polícia Federal de Ananindeua ligava a sirene para comprovar que realmente trazia gente doente para os hospitais da capital. Um certo dia àquela passagem diária, pontualmente à 07 horas da manhã, intrigou Leôncio, um dos guardas federais que tirava serviço na barreira. A princípio não levou a sério aquelas conjecturas, no entanto ficou remoendo aqueles pensamentos. Então, mais ou menos às 07 horas da manhã a tal ambulância dirigida pelo mesmo motorista passava pelo posto da Polícia Federal com a sirene ligada rumo a algum hospital de Belém. Será que todo dia adoecia um cristão naquela pequena cidade do litoral? -pensava Leôncio. Encafifado com aquela passagem diária, o guarda pensou em uma estratégia a fim de parar a ambulância para ratificar se o carro transportava doentes.

            Era uma sexta-feira e, às sete da manhã, na cabeça da ladeira aparece a ambulância com a sirene ligada. Leôncio e o colega Bezerra foram para o meio da pista interditar o veículo. Fizeram sinal para o cara estacionar e esse se encostou ao meio-fio. Leôncio se aproximou argumentando que por telefone avisaram que haviam roubado uma ambulância numa cidade próxima, O motorista visivelmente perturbado com a situação, imediatamente puxou os documentos do porta-luvas. O outro guarda se aproximando deu ordem para o condutor sair do carro. “Mas, senhor”- disse o assustado motorista – “estou com gente doente aí atrás!” O guarda tanto insistiu que  o homem desceu. Na averiguação – pasmem – onde deveria estar o enfermo, haviam caixas e mais caixas de peixes, certamente para serem negociados em Belém.  A ambulância e as caixas de peixes, evidentemente, foram apreendidas; o motorista, por seu turno, bateu com o costado na sede da Polícia Federal na Almirante Barroso.

            Quem gostou foi D. Isaíldes, tia do guarda Leôncio, que perguntou ao sobrinho um dia desses: “Quando é que a pescaria vai dar boa de novo? ‘Tô’ precisada!”.