quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

PARA QUEM QUER SER MAIS DO QUE A FOLHINHA MARCA




O homem se acha tão bom
quanto ele acredita que seja –
ilusão –
o homem é infinitamente pequeno,
um grão de areia,
uma folha caída,
um insignificante cascalho
numa mina de seixos.

O homem, sob todos os aspectos,
é um cofo de esterco,
um bicho vestido,
o homem é um animal repugnante.

LUCY GORAYEB MOURÃO NA ESTANTE VIRTUAL


Livro: Sem Lugar Para o Ódio (Contos)

Autora Lucy Gorayeb Mourão
Edição da Autora


Lucy: texto leve e sem evasivas.

A sua maneira, a autora vai narando as suas estórias ternamente como quem vai contando estorinhas para os netos. Textos sem
subterfúgios


quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

CHICO MENDES NO DIÁRIO DOS PENSADORES



* Chico Mendes (Xapuri 1944 – Idem 1988), ativista político, sindicalista e líder seringueiro acreano


- Se minha morte fosse fortalecer nossa luta, até que valeria a pena. Mas a experiência nos ensina o contrário.


- Então eu quero viver. Ato público e enterro numeroso não salvarão a Amazônia.


- O dever de acertar está intimamente ligado ao direito de errar.



terça-feira, 15 de dezembro de 2009

EFEITO ESTUFA

Enzo Carlo Barrocco




O planeta é uma fornalha,
esconde, nesse sentido,
a tua caixa de fósforo,
o tempo propicia
esses poemas angustiados.

Basta um atrito,
uma ínfima fagulha
e o inferno abrirá suas portas
para a entrada de muitos.

Não há como voltar
sobre os mesmos passos.
Melhor caminharmos devagar
que os primeiros focos do incêndio geral
já se fazem sentir.

CALCINHA E QUINTAL


Miniconto

por Enzo Carlo Barrocco



A bola saltitou entre a plantação de dálias e desapareceu por trás do muro da finada Rosa Lúcia. Morava ali agora minha tia Carla. Dei a volta para pegar a bola, pois o pessoal não permitia que eu participasse do jogo. Não havia muro na parte de atrás, só dos lados e logo avistei a bola na touceira de papoula. Fiquei estático! Minha prima Neza, abaixada rente a lateral do muro, escondida na touceira de capim-marinho, afastou um dos lados da calcinha, sem tirá-la e mijava despreocupadamente. Sem fazer ruído devolvi a bola por sobre o muro e dei de aproximar-me. O sibilo do líquido saindo! Nossa!! Súbito parou, levantou e, sem se virar, levou a calcinha até os joelhos, abaixou-se de novo e recomeçou. Desta vez, empinou a bunda se apoiando na touceira de capim. Evidentemente percebeu que eu estava ali. Levantou, virou de frente e, lentamente, deslizou a calcinha pelas coxas, deixando-a mal colocada, sempre com o olhos sobre mim. Ai! Aquela cara de menina tola! Veio na minha direção, passou raspando e se postou entre a parede da barraca e o muro de tijolos nus. “Vem!” -sussurrou. Deu a entender que ia baixar a calcinha. Ai! E eu era tão pequeno!

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

AFONSO CLÁUDIO, O POETA ATIVISTA


O POETA


Afonso Cláudio de Freitas Rosa, poeta, historiador, folclorista, ensaísta e político espírito-santense (Mangaraí, Distrito de Cachoeiro de Santa Leopoldina 1859 – Rio de Janeiro 1934), segundo alguns, foi o maior intelectual capixaba do final do século 19. Republicano e antiescravocrata, o poeta lutou muito contra a monarquia e a escravidão em nosso país. Com a Proclamação da República Afonso Cláudio se tornou o primeiro governador do estado do Espírito Santo.



O POEMA


O colóquio das águas (O rio e o mal)

II


— Quão venturoso és tu, ó velho sonhador!

Que nas areias límpidas, silentes,

Os flancos moves e aos largos continentes

Pródigo distribuis a quentura e o frescor!


— Engano teu, vilão! Em toda a parte a dor —

Diz o mar — transborda como tu em túrgidas enchentes;

Se o visco da lesma conspurca e tisna a flor,

Que outra sorte reservas ao resto dos viventes?


Por sobre o dorso meu repontam as quilhas;

Em revoadas se abatem sobre as ilhas

Aves que sulcam do espaço as amplidões.


E enquanto sobre mim deriva a vasa impura

Das cidades, os crustáceos revolvem a lama escura,

Que a terra expele e em ígneas convulsões!



quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

ALBERT SCHWEITZER NO DIÁRIO DOS PENSADORES


* Albert Schweitzer (Kaysersberg, na Alsácia, então parte do Império alemão 1875 - Lambaréné, Gabão 1965) teólogo, músico, filósofo e médico.


- O mundo tornou-se perigoso, porque os homens aprenderam a dominar a natureza antes de se dominarem a si mesmos.


- Só são verdadeiramente felizes aqueles que procuram ser úteis aos outros.


- Os anos enrugam a pele, mas renunciar ao entusiasmo faz enrugar a alma.


- Não devemos contentar-nos em falar do amor para com o próximo, mas praticá-lo.


- A quem o sofrimento pessoal é poupado, deve sentir-se chamado a diminuir o sofrimento dos outros.


- A tragédia da vida é o que morre dentro do homem enquanto ele vive.


- Quando o homem aprender a respeitar até o menor ser da criação, seja animal ou vegetal, ninguém precisará ensiná-lo a amar seus semelhantes.


- Dar o exemplo não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única.


- Assim como o sol derrete o gelo, a gentileza evapora mal-entendidos, desconfianças e hostilidade.



terça-feira, 8 de dezembro de 2009

DEOLINDA




A TENDA DOS BLOGUEIROS - CEMITÉRIO DE NAVIOS

Epitáfio


Wilson Guanais


deito aqui
os ossos
sem alma
e memória
: restos
apenas

de tudo
aquilo que
até ontem
eu era
- não sou
mais

: navio
e tripulação
(de amores)

- fantasmas




Do Blog do Wilson Guanais

http://cemiteriodenavios.blogspot.com/2008/06/epitfio.html

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

É POSSÍVEL QUE A MANHÃ VENHA NUBLADA

Enzo Carlo Barrocco




A preamar se deu as cinco e nove
a madrugada sente o seu cansaço,
estamos pelo dia dez de março
e antes que amanheça chove, chove.

É possível que a manhã venha nublada,
o frio, por conseguinte, é seu parceiro,
o sol não despontou, virá primeiro
um cheiro de hortelã e de alvorada.

Brevemente a longa madrugada
desaparecerá quase por encanto;
o vento que perpassa é um acalanto

à vida que ainda vai desacordada.
A reponta da maré reaguardada,
O ciclo recomeçará, portanto.

JARBAS PASSARINHO NO DIÁRIO DOS PENSADORES


* Jarbas Passarinho (Xapuri 1920) militar e político acreano


- Não temo a morte, mas não vivo a provocá-la.


- No Brasil todos nós somos muito dispostos a ir para a forca, com uma condição: desde que seja com o pescoço do outro.


- Já se disse que o uso das palavras frequentemente serve mais para convencer do que para expressar a verdade.


- Aos vencedores, as batatas. Aos vencidos, as cascas.


- Creio num velho ditado chinês que diz o seguinte: todos os fatos têm três versões: a sua, a minha e a verdadeira.


- A corrupção nasceu com Adão, implementou-se com Eva e só termina quando o último homem sair da face da Terra.



terça-feira, 1 de dezembro de 2009

LASCÍVIA


Enzo Carlo Barrocco


Não sou bonito, nem feio,
um par de olhos azuis;
estrelas no céu da boca, pus.

Não sou negro, nem sou branco,
no rosto um astro grená;
um universo nos meus lábios, há.

Não sou bonito, nem sou negro,
não sou branco, nem sou feio;
fogo no meu falo histérico ateio.