quarta-feira, 29 de julho de 2009

DA LAVRA POÉTICA DE ADAILTON MEDEIROS


Exílio dele nas Urubuguáias


Adailtom Medeiros

71 anos

Maranhense de Caxias


exilAdo nas urubuguáias

boi serapião do buriti

corre nos cerrAdos e grotões

tal marruá de tamAnca e reza


andarilho sem odres de couro

um patori desaplumbeAdo

na travessia das grAndes estórias

construindo em sete mil dias Dios


um antropomOrfa como

o veAdo do mistéRio

de gelos e vinhos tintos


ou o carCará castrAdo

vindo dos salEs noturnos

furnicAdo de marinhas


quinta-feira, 23 de julho de 2009

A CASA EM QUE O POETA MORA


Enzo Carlo Barrocco




Tenho pouco:

um fogão velho,

uma cadeira ao canto,

uma rede e um lençol puído.


Lá fora flores

num jardim que plantei cantando.


terça-feira, 21 de julho de 2009

DA LAVRA POÉTICA DE ABELARDO ROMERO


ODE A RASUNDA


Abelardo Romero

(Lagarto, SE 1907 - Idem 1979)


Torres coroadas de brasas
correndo atrás de comboios,
a rubra boca rotunda
dois faróis falando às vagas,
e nas balizas celestes
pipilo de estranhas aves.

Na orla da noite ornada
de luzes senta-se o Rio,
e, na escuridão profunda,
em vermelho sobre o negro
datilografa seu augúrio:
chove amanhã em Rasunda.

A manhã já não divulga
o chilreio das gaivotas,
nem o marulho dos cascos
de potros de escamas alvas
se contorcendo feridos
pela chama que os inunda.

.................................................

Sirenes, sinos, girândolas.
Não se janta. Ninguém ama.
E os rios descem salobros
na larga face fecunda.
Pais e filhos dormem juntos
sobre os louros de Rasunda.


CLAUSURA


Enzo Carlo Barrocco




Os religiosos olham as trancas,
os cadeados, as taramelas,
bem sabemos que Deus
está lá fora
não no escuro deste claustro.

E andam por aqui
nestes adros amortalhados,
nos entremeios destas colunas rudes,
nos semiescuros destes cômodos abafados
à procura da paz inexistente.

Deus está lá fora
com o seu sorriso de luz
e seus olhos resplandecentes sobre o dia.


sexta-feira, 17 de julho de 2009

A BOLSA DO GENIVAL

Miniconto

por Enzo Carlo Barrocco






O velho Genival era daquelas pessoas desconfiadas e arredias com pessoas estranhas, mas com os conhecidos se tornava falante, ainda mais se estivesse com “duas” na cabeça. Certo dia deixou a bolsa tiracolo no banco comprido da sala do casal de irmãos Nogueira, solteirões convictos, enquanto ia ao igarapé tomar banho. Só Dona Regina, velha solteirona estava na casa. O enfezado Genival voltava do banho quando ouviu o velho Rinaldo, que havia retornado, perguntar: de quem é essa “borsa”? A irmã respondeu: é de “Genivalo” O pessoal da família Nogueira sempre acrescentava “O” no final das palavras terminadas em “L”. Genival, ignorante por toda a vida, apanhou a bolsa e foi embora sem, ao menos, se despedir, resmungando que pela frente o chamavam de “seu” Genival, mas por trás o chamavam apenas de Genival. Os dois velhos estupefatos entreolharam-se enquanto o desfeiteado sumia na curva do caminho.

A TENDA DOS BLOGUEIROS - MINICONTO


SOLITUDE


O homem solitário estende a mão, pega o livro sobre o sofá e retoma a leitura. Os aparelhos, à sua volta, permanecem desligados. O homem Kafka, “Na colônia penal”. Um silêncio de estúdio toma conta do apartamento. Talvez seja noite no Brasil. O homem solitário entrega o mundo, fora, ao seu natural desconcerto. E sente em silêncio, enquanto lê, o quanto dói pensar, o quanto dói criar, "o quanto dói viver".


Do Blog do Carlos Barbosa

http://miniconto.zip.net/


quarta-feira, 15 de julho de 2009

O INVERNO ENTRE A CIDADE E O MAR

Enzo Carlo Barroco



Foi por setembro
o mar cresceu e invadiu os tapiris;
a chuva veio
e a temperatura, subitamente, caiu.

Mais além, as ondas
contra o muro de arrimo
assustavam alguns pássaros.

As janelas embaçadas
dos prédios próximos
atestavam o sossego
daquela noite, inesperadamente, fria.

segunda-feira, 13 de julho de 2009

DA LAVRA POÉTICA DE ABGAR RENAULT


NA RUA FEIA


Abgar Renault
(Barbacena 1901 - Rio de Janeiro 1995)


Na rua feia,
de casas pobres,
morreu o filhinho daquela mulher
que lava o linho rico
de um bairro distante.
Morreu bem simplesmente,
assim como um passarinho.
O enterro saiu...lá vai...
um caixãozinho azul
num carro velho de 3a. classe.
Atrás dois autos. Dois.

A tarde irá pôr luto
na rua feia,
de casas pobres?

Garotos brincam de esconder
atrás do muro de cartazes.
Lá no alto
vai-se abrindo grande céu sem mancha
cruzeiro-do-sulmente iluminado.


A FENDA


Miniconto

Enzo Carlo Barrocco




Antônio reparou quando a viúva Costa, furtivamente, entrou nos aposentos do padre Bruno. Será que o padre estava lá? Lembrou da fenda no forro de madeira que dava para o quarto do pároco. Ah, não! – pensou – vou ver o que ela foi fazer lá! O sacristão subiu pela escada da sala e foi para o quarto da fenda, justamente sobre o cômodo do pároco. Antônio achou a cena grotesca. A viúva, sentado em uma das pernas do padre, o beijava desesperadamente. Um segundo à frente o padre abriu a batina e pôs o seu sexo à mostra. A viúva o agarrou delicadamente, acariciando-o, ao mesmo tempo em que entreabria a perna colocando o seu sexo também à mostra, já que, naquele momento, não usava calcinha. Antônio não suportou ver o resto da cena. Impossível imaginar o respeitabilíssimo padre Bruno naquela situação. Antônio, nessa mesma tarde, pediu dispensa da função.



quarta-feira, 8 de julho de 2009

A AGUÇADA POESIA DE WILMAR SILVA


Wilmar Silva

(Rio Paranaíba 1965)

Poeta, ator e dramaturgo mineiro


pardal de rapina


redivivo pardal de rapina
enterro entre ervas e árvore
medra o piar da coruja
preso em meus ouvidos

cortado pelo sol da tarde
penas misturadas de terra
congelam em mim o sangue

o ópio
a água
o éter



DESPEDIDAS

Miniconto

Enzo Carlo Barrocco





Eram 6 e 30 e, embora a manhã estivesse claríssima para Regian era uma manhã muito triste. Ao longe o ruído conhecido do velho ônibus de todos os dias, exceto aos domingos, que levaria para a cidade, depois de 20 dias, a prima Odila. Apaixonou-se pela prima de 14 anos, olhos grandes e pretos, cabelos longos e tez parda. Não teve a devida coragem de interpelá-la quando, por vezes, existia a possibilidade. O ônibus parou entre as duas casas do lugar, abriu a porta dianteira e esperou. Regian, por trás de uns velhos coqueiros observava as despedidas; sentiu um aperto, mas o que fazer? O coletivo, empoeirado da estrada, desapareceu por trás do mato.

COMO FLAGREI SONINHA SE MASTURBANDO


Miniconto

Enzo Carlo Barrocco





- Fala de novo como foi que aconteceu?
- Mas eu já contei três vezes!
Marionaldo insistia par que eu contasse novamente como flagrei Soninha se masturbando no caminho do Pequiá.
- “Égua do cara insistente!!”. Tá bom eu conto! Pô, mas é só essa vez!
Foi assim:
- Eu tinha ido à vivenda dos Brito devolver um arco-de-pua que eu tinha emprestado do Nenzinho quando no retorno, às proximidades da Curva do Ipê, avistei Soninha. Apressadamente me escondi para dentro do mato para fazer uma espécie de brincadeira com ela, já que nos conhecíamos há tempos e eu, sem nenhuma maldade, achava que aquilo não iria causar a ela nenhum tipo de dano. O curioso é que antes de chegar onde eu estava escondido, Soninha entrou numa vereda do outro lado da estrada de terra deixando-me frustrado quanto à brincadeira que iria fazer. Mas por que ela entrou no mato? Atravessei a estrada me escondendo pelas touceiras de sororoca e vislumbrei Soninha se agachando ao lado de um tronco caído. Aproximei-me um pouco tomando cuidado para não fazer ruído nas folhas secas e, evidentemente, não ser percebido. Estranhei, pois ela estava com a calcinha nas mãos. Se fosse fazer xixi, pensei, deixaria a calcinha pelos joelhos. Ajeitou-se na direção para onde eu estava. Entreabria as pernas e olhava, olhava e entreabria as pernas novamente. A essa altura eu já estava louco. De repente, Soninha começou a esfregar os dedos por cima da racha. Já havia largado a calcinha e os pêlos estavam cortados rentes. Com a mão esquerda abria os grandes lábios para um dos lados e com os dedos da mão direita esfregava sofregamente o clitóris. Aqui e acolá apertava os bicos dos seios, parava um pouco, tomava fôlego e continuava, fazendo uma expressão de quem vai chegar ao orgasmo. Pensei surpreendê-la, mas sem saber a reação dela, desisti, pois não queria perder aquele belíssimo espetáculo Eu estava ali, escondido pelas touceiras de sororocas assistindo tudo gratuitamente. Nesse momento, com os dedos lambuzados, Soninha os enfiava na vagina, fazendo o conhecido movimento de vai-e-vem. Por fim, voltou a esfregar os dedos no grelo róseo e carnudo completamente encharcado pelo húmus vaginal. Por vezes os esfregava no ânus. Quando chegou ao orgasmo se vergou para trás apoiando-se com as costas no tronco caído. Que cara linda ela fez quando estava no auge do gozo! Como estava, vestiu rapidamente a calcinha, se ajeitou e apressou o passo. Fiquei ali por alguns minutos, quase sem forças para me levantar, pois eu não resisti à cena e, como Soninha, também “fiz justiça com as próprias mãos”.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

A TENDA DOS BLOGUEIROS - MICRORELATOS DO CHEEKO


451. males que vem pro bem

o torcicolo, de incômodo, fez-se providencial.: impediu-o de presenciar a cena de ciúme que sua namorada protagonizou bem ao seu lado e que, fatalmente, o levaria a torcer o pescoço da sirigaita.


DO BLOG DO CHICO PASCOAL

http://microrelatosdocheeko.blogspot.com/

sexta-feira, 3 de julho de 2009

O DIÁRIO DOS PENSADOREDS - PÁGINA 39


O mais bonito nos homens viris é algo feminino; o mais bonito nas mulheres femininas é algo masculino.

- Susan Sontag (Nova York 1933 – Idem 2004) contista, novelista e ensaísta americana


Temos sociólogos bons e medíocres. Uns acabam professores; outros, presidentes da República.

- Herbert José de Souza, o Betinho (Bocaiúva 1935 – Rio de Janeiro 1997) sociólogo e ativista político mineiro


Sonho com sinceridade e amor. A paixão importa menos do que a harmonia.

- Lady Di (Norfolk 1961 – Em um acidente automobilístico em Paris, França 1997) princesa inglesa


A paixão sem a razão é cega, a razão sem a paixão é inativa.

- Benedictus Spinoza (Amsterdã 1632 – Haia 1677) filósofo holandês


Ninguém pode ser totalmente livre, enquanto não forem todos livres.

- Herbert Spencer (Derby 1820 - Brighton 1903) filósofo e sociólogo inglês


O escritor é o técnico da alma humana.

- Joseph Stalin (Gori, Geórgia 1879 – Moscou 1953) político georgiano


Um marido é apenas um amante com a barba de dois dias, um colarinho sujo e queixando-se o tempo todo de enxaqueca.

- Glória Steinem (Toledo 1934) militante política, jornalista, feminista e ensaísta americana


A aparência é uma injustiça.

- Henry Stendhal (Grenoble 1783 – Paris 1842) romancista francês


Aqueles que corrompem a opinião pública são tão funestos como aqueles que roubam as finanças públicas.

- Adlai Stevenson (Los Angeles 1900 – Idem 1965) político americano


O riso é o mais inocente de todos os diuréticos.

- Jonathan Swift (Dublin 1667 – Idem 1745) poeta e romancista irlandês


E certa idade, quer pela astúcia, quer pelo amor-próprio, as coisas que mais desejamos são as que fingimos não desejar.

- Marcel Proust (Paris 1871 – Idem 1922) romancista francês


As três melhores coisas da vida são: um uísque antes e um cigarro depois

- Elizabeth Taylor (Londres 1932) atriz inglesa




quarta-feira, 1 de julho de 2009

O SEGREDO DE EURÍDICE

Miniconto

Enzo Carlo Barrocco





Veio um homem e disse algo no ouvido da viúva chorosa. Eu, Celito e Marcílio não conseguimos discernir o que o homem dissera. Percebemos, entretanto, que a viúva esboçou um sorriso. Sabíamos, em caráter oficioso, que Eurídice traía, amiúde, nosso distraído amigo. Daquele momento em diante passamos a desconfiar do homem de óculos de grau e jaqueta jeans que se aproximou de Eurídice ainda há pouco. Quando levantaram o caixão para pô-lo no carro fúnebre o homem do sussurro pegou em uma das alças e, nesse momento, apenas eu percebi que Eurídice com o rosto voltado para o homem, abrira um discreto e gracioso sorriso. Eu, que não tinha nada a ver com isso, não comentei com ninguém. Em vista disso, que prossiga o enterro!

POEMA ANTIGO


Enzo Carlo Barrocco





A casa de estilhas e taipa,

o menino de ontem,

o chão de barro -

O pai, a mãe, a paisagem,

o branco terreiro de todos os dias,

O igarapé próximo, próxima lembrança.


Caminhos para desconhecidos lugares,

um rádio,

o céu de criança que fui,

o céu do século passado,

poema antigo.