quarta-feira, 31 de dezembro de 2008

CANÇÃO PARA A NOITE FUNDA


Enzo Carlo Barrocco




Eu já nem era solene,
os coturnos dos soldaldos fremem,
fúria que se espraia
pela noite.

Comigo tudo bem, moro no tempo,
contratempo, contraponto, contramarcha;
estrelas cancerosas
aproximam-se angustiadas.

Trovões sem nuvens,
alguns relâmpagos (tempo excelente).
Ruas malfeitas, mal-iluminadas,
ruas que já não posso andar.


terça-feira, 30 de dezembro de 2008

DATA VÊNIA: RONALDO CAGIANO


Ronaldo Cagiano
(Cataguases 1961)
Poeta, contista, crítico literário e ensaísta mineiro


IMAGEM VIRTUAL

Não interrogues o poeta.
Que sabe o rio de suas águas?

Anderson Braga Horta

Sobre o beiral da velha ponte
de Cataguases
contemplo águas andarilhas
mirando o leito de antanho:
lâmina que me disseca
para um lúcido reconhecimento.
O rio que, inexorável, me escapa,
carrega antigas histórias
rumo ao mar das utopias:
reencontro nas catarses.
Nesse itinerário que serpenteia
por antigas paragens,
lanço barcos sem rumo
para o resgate do que f(l)ui
no espelho provisório
dos meus anos.

sexta-feira, 26 de dezembro de 2008

O POEMA E AS ROSAS


Enzo Carlo Barrocco





Vinhas leve, a rua molhada,
a chuva certamente não voltaria,
o brando vento inundava a tarde,
as tuas roupas, os teus cabelos.

Sim, o crepúsculo nascia nos teus olhos;
tarde de maio, simétricos feixes
de luz no final do dia.
Existia perfeição na paisagem toda.

Mas não reparavas nesses detalhes breves,
havia negligência dos teus passos,
desaparecias nos meandros das ruas.
Cultivo hoje lamentáveis rosas.



quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

BICHO EM EXTINÇÃO


Enzo Carlo Barrocco




A tua cabeça
fora de ordem
pelo dinheiro que não possuis,
o emprego é um bicho em extinção;
subemprego, sub-refeição, subsexo.

Uma dor de cabeça
terrível
sob um sol mal-humorado.
Não te desfaz da tua esperança,
se perdê-la não dormirás esta noite.



segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

FRANCISCA

Enzo Carlo Barrocco



Sempre que era tarde teus cabelos
encontravam a luz do dia,
a tua sombra esguia me lembrava um poema.

A minha mãe beijava as tuas mãos
longas, nodosas, surreais; a felicidade é sempre um momento
no passado
que não demos o devido valor;
os dias felizes eu não notava.

Não te vejo mais e, para toda a eternidade,
não mais te tocarei
(anjo adulto).
Ficarás eterna nas faces brunas dos que estão por vir.



quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A BAÍA ABRAÇA A ILHA

Enzo Carlo Barrocco


Porto Arthur - Mosqueiro


A baía abraça a ilha,
o sol ensopa julho de suor;
a linha d´água,
a tez contra o azul.

Olhos que se ajustam à paisagem,
água, céu e ilhas;
alguma embarcação,
gente translúcida
sobre o lombo branco de Mosqueiro.

Segue julho,
verão de muitas cores;
o belo mora nestas praias,
nos lábios rubros das mulheres.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A TENDA DOS BLOGUEIROS - CONTOSEMPRE



CANTOS ASSASSINOS

Mesmo que a sutileza de tudo isso seja impenetrável para a maioria das pessoas, foi com sentimentos nobres que construí meu vil objetivo. O amor constrói inúmeras estruturas, assim como a pedra. Com elas pode se erguer uma torre que possibilita divisar o mar, como também um prisão ou uma masmorra. Com o amor pode se construir todas as infinitas histórias bonitas que nos contam quando somos crianças, e também pode se edificar o destino das criaturas que então pertenciam a mim.

Quisera eu poder ter somente uma leitura para cada palavra em minha vida. Mas nasci com o dom da dúvida e com a escuridão na mente. Toda minha vida foi uma bacia de risos cercando as lágrimas que eram minha essência. Toda minha existência, antes de Joana e Joaquina, uma mentira.

Trecho do conto "Glossário dos Fluidos Humanos" do surpreendente livro "Cantos Assassinos", de Daniel Detânico (ou Detanico), escritor gaúcho (ou sul-riograndense), editado em 2.000 pela Maneco Livraria e Editora, da cidade Caxias do Sul/RS. São três contos sobre assassinatos, sobre isso não há surpresa. A forma como são narrados é que surpreende - boa dose de originalidade, escrita segura e não-linear, que indicam maturidade do escritor. Nunca ouvi falar antes de Daniel Detânico (não parece a vocês um pseudônimo?). Nem há no livrinho (pelo número de páginas) nenhuma indicação de quem seja, nada, só a indicação de sua naturalidade pela ficha catalográfica e pela editora. Comprei o exemplar por uma ninharia na LDM, entre os promocionais do andar superior.


DO BLOGUE DO CARLOS BARBOSA

http://contosempre.zip.net/

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

PÁSSAROS DO ANOURÁ - POETRIX - 17ª TRÍADE

TRÊS LIVROS

Páginas dobradas,
três livros sobre as estantes
empoeiradas.


MANHÃZINHA

O sol pincela

o dia. A manhã ergue-se
carmim-amarela.


FALENAS


Um minuto apenas

a vida, a beleza efêmera
das falenas.


JIRAU DIVERSO Nº 34

JIRAU DIVERSO

Nº 34– dezembro.2008

por Enzo Carlo Barrocco



A POESIA PARANAENSE DE EMILIANO PERNETA


O POEMA


SETEMBRO


Eu ontem vi chegar, quase que à noitezinha,
Apressada e sutil, a primeira andorinha...
 
É a primavera, pois, em flor, que se anuncia,
É setembro que vem, bêbedo de ambrosia
 
Mãos doiradas, a rir, mãos leves e radiosas,
Semeando à luz e ao vento as papoulas e as rosas...
 
Como foi para nós de um esquisito gozo,
Ó minha alma! esse doce, esse breve repouso,
 
Que entre o nosso viver tumultuário e incerto
Surgiu como se fosse o oásis do deserto...
 

O POETA


David Emiliano Antunes, o Emiliano Perneta, poeta e jornalista paranaense (Pinhais 1866 – Curitiba 1921) foi um incansável homem de letras sempre preocupado com a difusão da literatura em nosso país. Alguns críticos vinculam a poesia de Perneta ao simbolismo embora eu, particularmente ache que seus escritos transpõem sutilmente essa rotulação. Colaborador em diversos periódicos de São Paulo e Curitiba, deixou a sua poesia fragmentada, também, em algumas revistas criadas por ele.



ESTANTE DE ACRÍLICO



Livros Sugestionáveis



Surfando na Multidão (poesias)

Autor: Edyr Augusto

Edição: Editora Cejup

Os textos de Edyr margeiam a poesia práxis sem, no entanto, tocá-la. Poemas concisos, sem títulos, harmoniosamente construídos.



Albergue Noturno (romance)

Autor: Edilson Pantoja

Edição: IAP / Governo do Pará

Embora falte um pouco de estilo (acerto que o jovem autor fará no decorrer da carreira) a escrita de Edílson é interessantíssima. Um romance fatiado.



Vidas Secas (Romance)

Autor: Graciliano Ramos

Edição: Editora RCB

Uma família de retirantes tenta escapar da seca nos confins dos sertões nordestinos. Todas as nuances desta saga narradas pela genialidade de Graciliano.


***

A FRASE DI/VERSA


Um homem desejoso de trabalhar e que não consegue encontrar trabalho, talvez seja o espetáculo mais triste que a desigualdade ostenta.

- Thomas Carlyle (Ecclefecham 1795 – Londres 1881) historiador, jornalista e filósofo escocês



DA LAVRA MINHA

CANÇÃO


Enzo Carlo Barrocco


Cada vez que vens ao meu encontro

trazes um pouco de brisa e de afeto

teu sorriso se abre, um girassol

que ae mostra inteiro para o dia.



Vens cantando como uma ave canta

no início da manhã. Então me olhas

e te aproximas (lua de janeiro)

entre as brumas matutinas que se formam.



Carregas contigo esse perfume

que exala pelos cômodos da casa,

fragrância que há tempos reconheço.



Podes vir te aguardo intensamente;

não demora. Para que perdermos tempo?

E não esqueças da canção que prometeste.



sexta-feira, 12 de dezembro de 2008

PÁSSAROS DO ANOURÁ - POETRIX - 16ª TRÍADE


Enzo Carlo Barrocco



CRIAÇÃO


Pôr a vida à pedra,

o escultor e o camartelo,

que se alonga e medra.



PAISAGEM DE ALPENDRE


Plantas nos xaxins,

correm os muros ligeiros

gatos e jasmins.



MULHER E BILHA


Um sol poente,

mulher e bilha despontam

graciosamente.



quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

AMOR


Enzo Carlo Barrocco




AMOR

O amor é belo,
O sofá amarelo;
na parede São Jorge e o dragão.

A cortina barata,
calcinha e gravata;
na casa não há mais ninguém.

Mamilos túmidos,
entrefolhos úmidos;
falo e fenda entre dedos víscidos...

quarta-feira, 10 de dezembro de 2008

RONALD POLITO: O POETA HISTORIADOR


Ronald Polito

(Juiz de Fora, 1961)

Poeta, ensaísta e historiador mineiro



Outra Face


Faces sem conta são
possíveis quando a face
perfaz, desfaz, refaz-se
na cristalização


efêmera que, impasse
a impasse, implica, não
obstante a interação,
além de uma interface,


com outras que, indevido
equívoco, depressa
reduzem-se a resíduo,


o impulso que a arremessa
a um face-a-face assíduo
com sua face avessa.


PÁSSAROS DO ANOURÁ - POETRIX - 15ª TRÍADE


Enzo Carlo Barrocco



PAISAGEM DE METRÓPOLE


Chuva às manhãzinhas,

cores diversas das gentes,

carros e sombrinhas.



ARREMESSO


Aremesso a mágoa

contra a paz branca do lago;

uns círculos d´água.



OS BÊBADOS


Uns pássaros loucos

rasgam a branca madrugada

com seus gritos roucos.



segunda-feira, 8 de dezembro de 2008

SOBREVIDA


Enzo Carlo Barrocco





Após a chuva

um louva-a-deus estático

espera sua presa entre o verde.

A borboleta branca, incauta

e livre

se aventura ante à morte;

imóvel e atento o louva-a-deus

espera.


Súbito o galho pende sob uma

força brusca;

a borboleta, então, se afasta

e livre e branca.

O esgalgado inseto verde,

entre o verde,

prepara outra espera...



sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

VAGA / BUNDAGEM


Enzo Carlo Barrocco






Brasília vaga

cadeiras

vagas

bolsos atulhados

em/cont(r)as...



Traje único

urna emprenhada

resultado algum.

Não se

Venda!



quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

NOTAS PEQUENAS – PASQUALE MOSTRA A LÍNGUA


Croniquetas


por Enzo Carlo Barrocco



"Nossa Língua...": Salvando a TV aberta do lixo cultural

Nesta nota gostaria de fazer uma pequena homenagem ao programa “Nossa Língua Portuguesa”, ao seu apresentador, o professor Pasquale Cipro Neto e a toda a sua produção . Alguns programas salvam a televisão brasileira do lixo que aí está, como o “Nossa Língua Portuguesa” que é uma dessas pequenas jóias que, vez por outra, emergem em meio à ganga. Vida longa ao “Nossa Língua Portuguesa”, ao maleável Pasquale Cipro Neto e à TV Cultura de São Paulo pela excepcional idéia de pôr no ar um programa que prima pela qualidade e pelo conteúdo.


A TENDA DOS BLOGUEIROS - CONTOS BRASILEIROS

APENAS UM EPISÓDIO

Em suas memórias (volume III, página 41), Alfred Hitchock conta um episódio aterrorizante.
Uma noite fazia anotações para um filme. Não diz se levou adiante o projeto. Thomas Mc Carthy informa tratar-se de “Pacto Sinistro”. E faz cotejo entre as cenas do filme e as anotações citadas por Aldred.
Súbito a luz do aposento se apagou. E a caneta caiu das mãos do mestre. Ou sumiu de entre seus dedos. Instintivamente, tateou a mesa, à procura da caneta. E nada encontrou. Talvez tivesse caído para o chão. Melhor aguardar a luz. Cruzou as mãos e, pacientemente, esperou. Não costumava faltar luz na casa. E canetas nunca desapareciam misteriosamente.
Passados alguns minutos, a casa se iluminou de novo. Hitchcock descruzou as mãos e varreu a mesa com os olhos. Só papéis e livros. Apalpou-os, sacudiu-os. Definitivamente a caneta desaparecera. Não se achava sobre a mesa, nem debaixo dela. Vasculhou todo o aposento, recanto a recanto. E nada de caneta.
Apavorado, sedento, correu à geladeira. Beberia um litro de água. Abriu abruptamente a porta, e, para seu espanto, tudo virara gelo. Até a caneta.
Alfred Hitchcock quase desmaiou. Eriçaram-se os cabelos. Como poderia a falta de luz ter provocado aquilo?
James Grant nega o episódio. Tudo se deu apenas na imaginação do cineasta. Seria apenas mais um episódio de filme.


DO BLOG DO NILTON MACIEL

http://contosbrasileiros.blogspot.com/


terça-feira, 2 de dezembro de 2008

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 33


Poeta convive com uma certa anomalia

de olhar para dentro de si todo dia.

- Eliana Mora (Rio de Janeiro 1948 - poeta fluminense


O invejoso chora mais o bem alheio que o próprio dano.


- Francisco de Quevedo y Villegas (Madri 1580 – Villanueva de los Infantes 1645) poeta espanhol


Quando não se tem aquilo que se gosta é necessário gostar-se daquilo que se tem.

- Eça de Queiroz (Povoa do Varzim 1845 – Paris 1900) contista e romancista português


A simplicidade é a mais difícil coisa que se pode obter, é o último limite da experiência e o maior esforço de genialidade.


- Georges Sand (Paris 1804- Nohant 1876) romancista francesa


A terra não pode ser mera reserva de valor para os que especulam com o seu preço, por que só nela os homens encontram a vida.

- Ulysses Guimarães (Rio Claro 1916 – Em um desastre de helicóptero, mar de Angra dos Reis 1992) político paulista, cognominado “O Senhor Diretas”.


A verdade científica é sempre um paradoxo, se julgada pela experiência cotidiana que se agarra à aparência efêmera das coisas.

- Karl Marx (Trier 1818 –Londres 1883) economista, político, filósofo e ensaísta alemão


Cada geração ri de seus pais, ridiculariza seus avós e admira seus bisavós.

- William Somerset Maughan (Paris 1874 – Londres 1965) romancista, contista, dramaturgo e ensaísta inglês nascido na França


Só podemos falar francamente sobre nossos defeitos para aqueles que conhecem nossas qualidades.

- André Maurois (Elbeuf 1885 – Paris 1967) romancista e biologista francês


Decreta-se que nada será obrigado nem proibido,

tudo será permitido,

... só uma coisa fica proibida:

amar sem amor.

- Thiago de Melo (Bom Socorro, distrito do município de Barreirinha 1926) poeta amazonense


Do mesmo papel em que lavrou a sentença contra um adúltero, o juiz rasgará um pedaço para nele escrever umas duas linhas amorosas à esposa de um colega.

- Michel de Montagne (Bordeaux 1533 – Idem 1592) ensaísta francês


segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

SANTA CATARINA CLAMA POR AJUDA




Gostaria de prestar minha solidariedade à população catarinense, em especial, às pessoas atingidas, nas últimas semanas, pelas enchentes e pelas quedas de barreiras na região do Vale do Itajaí. Peço a todos os brasileiros dos vários rincões do país, que tenham condições de ajudar, que dêem a sua contribuição aos nossos irmãos catarinenses que, neste momento, estão necessitando de todo tipo de ajuda. Em Belém, as doações podem ser entregues na sede do Corpo de Bombeiros que fica na Avenida Júlio Cezar 3.000, esquina com a Avenida Pedro Álvares Cabral. Procure no seu Estado onde fazer as doações. Amigos internautas, solidariedade é a palavra de ordem.