sexta-feira, 31 de outubro de 2008

DENTINHO: O OUTRO GAROTO DO PARQUE


Croniquetas


por Enzo Carlo Barrocco


Dentinho: mordida na artilharia



Gosto muito do estilo do jogador Dentinho, um dos responsáveis pela volta do Corinthians à Série A do Campeonato Brasileiro para o ano de 2009. Bruno Ferreira Bonfim, o Detinho (São Paulo 1989) lembra vagamente, no modo de correr, o estilo do ex-jogador Dario, o Dadá Maravilha (Rio de Janeiro 1946), menos talento, evidentemente, no fundamento cabeçada, no qual Dario era exímio. Detalhe: não sou corinthiano, mas torço pelo sucesso do jogador, que se mostrou até agora um grande goleador.



A TENDA DOS BLOGUEIROS - MICROCONTOS CARLOS SEABRA


eabraO mapa que herdara assinalava o local do tesouro mas não indicava em que parte do mundo se encontrava. Sem saber, viveu toda a sua vida sobre ele.


Do blog do Carlos Seabra


http://www.seabra.com/contos/



quinta-feira, 30 de outubro de 2008

PÁSSAROS DO ANOURÁ - Poetrix - 12ª Tríade

Enzo Carlo Barrocco


MEDIDA

Ao que me parece
o sol que trazes na alma
não há quem messe.

OUTONO
Sobre a cidade
a alva manhã se desprende
com frugalidade.

A LUA SOBRE A MINHA CASA
Verdejante:
a lua maior, mais bonita
e mais exuberante.


quarta-feira, 29 de outubro de 2008

ROBERVAL PEREYR - A BAHIA TEM O SEU POETA


ROBERVAL PEREYR

Antônio Cardoso 1953

Poeta e novelista baiano


ENREDO

Invento minha flor entre dois porcos
e amanheço de óculos numa praça
oca.

Incendeio meus sonhos numa esquina,
deixo as cinzas numa encruzilhada
sob o choro rasante da amada
louca.

Atravesso o destino com um mendigo
e adoto seu nome
e sua fome.
Com sua voz desdentada eu faço um hino.

Eis o homem.


terça-feira, 28 de outubro de 2008

VIDAS SUBURBANAS – A DESIGUALDE IRROMPE OS SÉCULOS

Resenha

por Enzo Carlo Barrocco



"O Cortiço": uma indisfarçável crítica social

O movimento literário naturalista no Brasil teve no romance “O Cortiço” (Martin Claret, 2007, 240 páginas) sua obra mais importante, cujo autor, o maranhense Aluísio Azevedo (São Luís 1857 – Buenos Aires 1913) numa explanação pormenorizada descreve a vida suburbana da cidade do Rio de Janeiro no final do século XIX. O romance é narrado na terceira pessoa e todas as mazelas sociais da época são enfocadas, inclusive, traições, violências sexuais, relacionamento lésbico e homossexual. É inconteste a influência do contista e romancista português Eça de Queiroz (Povoa do Varzim 1844 – Paris 1900) sobre a obra de Aluísio. Vários aspectos da sociedade da época são condensados na narrativa. O Português João Romão consegue comprar um estabelecimento comercial no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro, assim como um pedaço de terra onde constrói algumas casinhas para alugar, desencadeando, daí, toda a trama. “O Cortiço” foi publicado pela primeira vez em 1890, há 118 anos, portanto, mas traz em seu bojo algo de atual, pois os cortiços do século XIX transformaram-se, devido a desigualdade social na qual o Brasil mergulhou, nas favelas dos nossos tempos, que vieram acompanhadas por traficantes de armas e de drogas, milícias, guerrilha urbana, entre tantos outros problemas. Aluísio Azevedo, exímio observador da vida urbana encontrou nos subúrbios cariocas, material para construir de forma clara, uma obra definitiva, classificada por muitos críticos como sua obra-prima.



TRECHO DE “O CORTIÇO”


João Romão foi, dos treze aos vinte e cinco anos, empregado de um vendeiro que enriqueceu entre as quatro paredes de uma suja e obscura taverna nos refolhos do bairro do Botafogo; e tanto economizou do pouco que ganhara nessa dúzia de anos, que, ao retirar-se o patrão para a terra, lhe deixou, em pagamento de ordenados vencidos, nem só a venda com o que estava dentro, como ainda um conto e quinhentos em dinheiro.

Proprietário e estabelecido por sua conta, o rapaz atirou-se à labutação ainda com mais ardor, possuindo-se de tal delírio de enriquecer, que afrontava resignado as mais duras privações. Dormia sobre o balcão da própria venda, em cima de uma esteira, fazendo travesseiro de um saco de estopa cheio de palha. A comida arranjava-lhe, mediante quatrocentos réis por dia, uma quitandeira sua vizinha, a Bertoleza, crioula trintona, escrava de um velho cego residente em Juiz de Fora e amigada com um português que tinha uma carroça de mão e fazia fretes na cidade.

Bertoleza também trabalhava forte; a sua quitanda era a mais bem afreguesada do bairro. De manhã vendia angu, e à noite peixe frito e iscas de fígado; pagava de jornal a seu dono vinte mil-réis por mês, e, apesar disso, tinha de parte quase que o necessário para a alforria. Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma carga superior às suas forças, caiu morto na rua, ao lado da carroça, estrompado como uma besta.

João Romão mostrou grande interesse por esta desgraça, fez-se até participante direto dos sofrimentos da vizinha, e com tamanho empenho a lamentou, que a boa mulher o escolheu para confidente das suas desventuras. Abriu-se com ele, contou-lhe a sua vida de amofinações e dificuldades. “Seu senhor comia-lhe a pele do corpo! Não era brinquedo para uma pobre mulher ter de escarrar pr’ali, todos os meses, vinte mil-réis em dinheiro!” E segredou-lhe então o que já tinha junto para a sua liberdade e acabou pedindo ao vendeiro que lhe guardasse as economias, porque já de certa vez fora roubada por gatunos que lhe entraram na quitanda pelos fundos.

Daí em diante, João Romão tornou-se o caixa, o procurador e o conselheiro da crioula. No fim de pouco tempo era ele quem tomava conta de tudo que ela produzia, e era também quem punha e dispunha dos seus pecúlios, e quem se encarregava de remeter ao senhor os vinte mil-réis mensais. Abriu-lhe logo uma conta corrente, e a quitandeira, quando precisava de dinheiro para qualquer coisa, dava um pulo até à venda e recebia-o das mãos do vendeiro, de “Seu João”, como ela dizia. Seu João debitava metodicamente essas pequenas quantias num caderninho, em cuja capa de papel pardo lia-se, mal escrito e em letras cortadas de jornal: “Ativo e passivo de Bertoleza”.

E por tal forma foi o taverneiro ganhando confiança no espírito da mulher, que esta afinal nada mais resolvia só por si, e aceitava dele, cegamente, todo e qualquer arbítrio. Por último, se alguém precisava tratar com ela qualquer negócio, nem mais se dava ao trabalho de procurá-la, ia logo direito a João Romão.

Quando deram fé estavam amigados.

Ele propôs-lhe morarem juntos, e ela concordou de braços abertos, feliz em meter-se de novo com um português, porque, como toda a cafuza, Bertoleza não queria sujeitar-se a negros e procurava instintivamente o homem numa raça superior à sua.

João Romão comprou então, com as economias da amiga, alguns palmos de terreno ao lado esquerdo da venda, e levantou uma casinha de duas portas, dividida ao meio paralelamente à rua, sendo a parte da frente destinada à quitanda e a do fundo para um dormitório que se arranjou com os cacarecos de Bertoleza. Havia, além da cama, uma cômoda de jacarandá muito velha com maçanetas de metal amarelo já mareadas, um oratório cheio de santos e forrado de papel de cor, um baú grande de couro cru tacheado, dois banquinhos de pau feitos de uma só peça e um formidável cabide de pregar na parede, com a sua competente coberta de retalhos de chita.

O vendeiro nunca tivera tanta mobília.

- Agora, disse ele à crioula, as coisas vão correr melhor para você. Você vai ficar forra; eu entro com o que falta.

Nesses dias ele saiu muito à rua, e uma semana depois apareceu com uma folha de papel toda escrita, que leu em voz alta à companheira.

- Você agora não tem mais senhor! declarou em seguida à leitura, que ela ouviu entre lágrimas agradecidas. Agora está livre! Doravante o que você fizer é só seu e mais de seus filhos, se os tiver. Acabou-se o cativeiro de pagar os vinte mil-réis à peste do cego!

- Coitado! A gente se queixa é da sorte! Ele, como meu senhor, exigia o jornal, exigia o que era seu!

- Seu ou não seu, acabou-se! E vida nova!

(...)




quinta-feira, 23 de outubro de 2008

FOTOGRAFIA Nº 1 - Da Série: Paisagens de Belém


Enzo Carlo Barrocco



Foto: Marcus Oliveira


Vento,
vento da Baía,
do barco que se vê ao longe:
"Fé em Deus IV".

Dois caboclos
desafiam as águas
num barco menor.
Ribeirinhos do Arapiranga.

O sol morre
na Ilha das Onças,
nas tranças verdes
do açaizal.




A TENDA DOS BLOGUEIROS - CADAFALSO II


Minicontos do desconforto -- 96

Do lado de fora, a velha face bonachona e o riso em meio ao vinho e às notas; mas, a cada vez que olhava a cadeira vazia, seu íntimo gritava de dor. E ele se lembrou do que um velho amigo dissera: chorar por dentro é muito pior, porque não há lenços para a alma.


Do blog do André Machado


http://amachado.blogspot.com/







terça-feira, 21 de outubro de 2008

NOTAS PEQUENAS: AS PERIPÉCIAS DO BENTO

Croniquetas

por Enzo Carlo Barrocco



O Papa Bento XVI, filosofando a respeito da crise financeira mundial, afirmou que “o dinheiro não vale nada, só Deus é sólido”. Para ele é facílimo falar que o dinheiro não tem importância, afinal Sua Santidade não paga água, impostos, energia elétrica, telefone, alimentação e tantas outras contas que o cidadão comum tem de saldar. A qualquer tempo e hora ele tem tudo à mão e só sai do palácio para passear, em detrimento a todas as mazelas que acontecem no mundo. A propósito, o alemão Joseph Ratzinger (Marktl am Inn 1927) autorizou a canonização do Papa Pio XII (Roma 1876 – Idem 1958), no sólio à época da 2ª Guerra Mundial que, com o poder nas mãos, não fez absolutamente nada para minimizar o sofrimento de seis milhões de pessoas dizimadas pelos nazistas nos campos de concentração.




segunda-feira, 20 de outubro de 2008

MURUBIRA


Praia do Murubira em Mosqueiro - Foto: Cláudio Sacramento



O dia vai se apagando
Nas águas do Murubira,
Vento brando pela orla,
Um sol baixo se retira.

As luminárias se acendem
Surgem algumas estrelas,
Fiapos de nuvens róseas,
Que grande prazer em vê-las!

Enfim é noite na ilha,
A praia está bem deserta,
Somente a lua desponta

Um tanto quanto encoberta,
Mais tarde de madrugada
A chuva virá na certa.


sexta-feira, 17 de outubro de 2008

HAI-KAIS - 9º TERCETO

Enzo Carlo Barrocco



Não tarda a chuva,

o som do igapó aclara

algumas lembranças.



***


Sol pelo caminho,

no céu uma lua branca -

belíssima tarde


***


Uma chuva fina,

a velha casa de taipa -

silenciosa noite.



A TENDA DOS BLOGUEIROS - BREVE HISTÓRIAS



Apetite

Era um novo homem. Desde o dia em que entrara naquela igreja, todos os seus pecados haviam sido lavados. O arrependimento tomara conta de sua alma, sua mente. Nada mais de tocar crianças. Abandonara inclusive o álcool, que era o maior responsável pelos seus atos impuros. Às vezes, a carne pregava-lhe peças. Então se aliviava como podia, sozinho. Mas não era sua culpa. Era culpa daquelas roupas tão pequenas, naqueles corpos tão jovens e tenros.

Ady Cavalcante


DO BLOG BREVE HISTÓRIAS

http://breveshistorias.zip.net/index.html



quinta-feira, 16 de outubro de 2008

NOTAS PEQUENAS: OS SUSSURROS DO JOÃO

Croniquetas

por Enzo Carlo Barrocco





João Gilberto dando uma de garoto-propaganda para uma grande empresa brasileira, na base da voz e violão, aparece cantando tão baixo que em certos trechos é impossível entendê-lo. Um cantor que economiza voz. Será possível? Agüentar uma hora e meia de show nesse tom é algo impressionante. “Já pensou” se ele cantasse mais alto?



quarta-feira, 15 de outubro de 2008

JIRAU DIVERSO Nº 32

JIRAU DIVERSO

Nº 32– outubro.2008

por Enzo Carlo Barrocco



A POESIA TOCANTINENSE DE ZECA TOCANTINS



O POEMA



FIM



Agora que o sol

se põe

no céu de nossos desejos


vejo afogadas

em sonhos

promessas ardentes de beijos.


Acaso precipitamos

aquele

amor tão bonito?


Ah! Tão depressa

chegamos

ao que julgávamos infinito.


O POETA



José Bonifácio Cézar Ribeiro, o Zeca Tocantins, Tocantinense de Xambioá, poeta, contista, cantor e compositor, no convés da fragata desde 1958, é um artista múltiplo onde a palavra ocupa o eixo central. Sempre engajado culturalmente, Zeca já participou de diversos festivais de música em várias regiões do Brasil. Um poeta preocupado com os rumos da literatura na região Tocantina, principalmente a de Imperatriz, no Maranhão, onde atualmente reside.



ESTANTE DE ACRÍLICO


Livros Sugestionáveis


Cabanagem – A Revolução Popular da Amazônia (Ensaio)

Autor: Pasquale di Paolo

Edição: Edições CEJUP

Uma nova visão da Cabanagem (Revolução ocorrida no Pará entre 1935 e 1940) sob a acurada perspectiva de Pasquale di Paolo recuperando a rica memória histórica da Amazônia. Um documento inapreciável.


Contos Avulsos

Autor: Machado de Assis

Edição: Ediouro – Grupo Coquetel

O conto bem contado, imagens bem descritas, enredos espetaculares. O excelente Machado de sempre, organizado e prefaciado por R. Magalhães Júnior, membro da Academia Brasileira de Letras


Os Irmãos Karamazov (Romance)

Autor: Fiodor Dostoiévski

Edição: Ediouro – Grupo Coquetel

Uma das grandes obras de Dostoievski, jóia da literatura mundial, com introdução de Otto Maria Carpeaux. Um romance extraordinário, com a marca inconfundível deste escritor russo.


***


A FRASE DI/VERSA


Enquanto a cor da pele for mais importante que o brilho dos olhos haverá guerra.

- Bob Marley (Saint Ann 1945 – Miami, EUA 1981) cantor, compositor e instrumentista jamaicano



DA LAVRA MINHA



A rua estreita se move sob a lua



Enzo Carlo Barrocco



A rua estreita se move

sob a lua,

hoje não chove,

a claridade se espraia sobre o bairro.

Gente pelos pátios,

nas calçadas;

ainda é cedo para

cadeados e correntes.


Logo mais a lua vai embora,

gatos, luminárias

e algum poema vago

sobreviverão à fria aragem

que se arruma

e, lentamente,

chegará com a madrugada.


terça-feira, 14 de outubro de 2008

CASTRO ALVES: O PRÍNCIPE DO ROMANTISMO

por Enzo Carlo Barrocco


Antônio Frederico de Castro Alves, poeta baiano (Muritiba 1847 – Salvador 1871) demonstrou muito cedo vocação apaixonada para a poesia. De Salvador para onde fora com a família em 1853, mudou-se para o Recife onde continuou os estudos. Por essa época conheceu o poeta e ensaísta sergipano Tobias Barreto (Campos, atual Tobias Barreto 1839 – Recife 1889) através do qual foi integrado à vida literária e acadêmica. Por volta de 1866, iniciou apaixonada ligação amorosa com a atriz portuguesa Eugênia Câmara que desempenhou importante papel na sua vida literária e particular. Daí para frente o poeta entrou numa fase de excepcional inspiração. Em 1868 viaja para São Paulo em companhia de Eugênia, matriculando-se no 3º ano da Faculdade de Direito, na mesma turma de seu conterrâneo Rui Barbosa (Salvador 1849 – Petrópolis, RJ 1923) que viria a ser depois jornalista, ensaísta e jurista respeitabilíssimo. Por essa época, durante uma caçada, acidentalmente a descarga de uma espingarda feriu seu pé esquerdo, sendo depois, sob a ameaça de gangrena, amputado no Rio de Janeiro em meados de 1869. De volta à Bahia no ano de 1870 contraiu tuberculose. No mês de novembro de 1870 saiu seu primeiro e único livro publicado em vida, “Espumas Flutuantes”. Daí por diante, apesar da saúde debilitada, produziu seus mais belos versos, animado por um derradeiro amor, platônico por sinal, Agnese Murri (cantora). A poesia de Castro Alves se distingue por duas vertentes: a vertente lírico-amorosa e a feição social e humanitária. O vigor da paixão e a intensidade amorosa são colocados em seus versos de uma maneira completa. Enquanto poeta social deu sua contribuição inestimável aos anseios revolucionários e liberais do século XIX. Castro Alves foi o anunciador da abolição da escravatura e da proclamação da república que viriam alguns anos depois. Foi devoto apaixonado pela causa abolicionista o que lhe valeu o título de “O Cantor dos Escravos”. Embora atemporal, alguns o rotulam como pertencente à terceira geração de românticos, representante do Condoreirismo, comportamento artístico e poético da última fase do romantismo brasileiro. Fiquemos, portanto, com três raríssimas jóias produzidas pelo vasto universo da mente de Castro Alves.


Coração

O coração é o colibri dourado
Das veigas puras do jardim do céu.
Um — tem o mel da granadilha agreste,
Bebe os perfumes, que a bonina deu.

O outro — voa em mais virentes balças,
Pousa de um riso na rubente flor.
Vive do mel — a que se chama — crenças —,
Vive do aroma — que se diz — amor. —


Fabíola

Como teu riso dói... como na treva
Os lêmures respondem no infinito:
Tens o aspecto do pássaro maldito,
Que em sânie de cadáveres se ceva!

Filha da noite! A ventania leva
Um soluço de amor pungente, aflito...
Fabíola!... É teu nome!... Escuta é um grito,
Que lacerante para os céus s'eleva!...

E tu folgas, Bacante dos amores,
E a orgia que a mantilha te arregaça,
Enche a noite de horror, de mais horrores...

É sangue, que referve-te na taça!
É sangue, que borrifa-te estas flores!
E este sangue é meu sangue... é meu... Desgraça!


Boa noite

Boa noite, Maria! Eu vou,me embora.
A lua nas janelas bate em cheio.
Boa noite, Maria! É tarde... é tarde. .
Não me apertes assim contra teu seio.

Boa noite! ... E tu dizes - Boa noite.
Mas não digas assim por entre beijos...
Mas não mo digas descobrindo o peito,
— Mar de amor onde vagam meus desejos!

Julieta do céu! Ouve... a calhandra
já rumoreja o canto da matina.
Tu dizes que eu menti? ... pois foi mentira...
Quem cantou foi teu hálito, divina!

Se a estrela-d'alva os derradeiros raios
Derrama nos jardins do Capuleto,
Eu direi, me esquecendo d'alvorada:
"É noite ainda em teu cabelo preto..."

É noite ainda! Brilha na cambraia
— Desmanchado o roupão, a espádua nua
O globo de teu peito entre os arminhos
Como entre as névoas se balouça a lua. . .

É noite, pois! Durmamos, Julieta!
Recende a alcova ao trescalar das flores.
Fechemos sobre nós estas cortinas...
— São as asas do arcanjo dos amores.

A frouxa luz da alabastrina lâmpada
Lambe voluptuosa os teus contornos...
Oh! Deixa-me aquecer teus pés divinos
Ao doudo afago de meus lábios mornos.

Mulher do meu amor! Quando aos meus beijos
Treme tua alma, como a lira ao vento,
Das teclas de teu seio que harmonias,
Que escalas de suspiros, bebo atento!

Ai! Canta a cavatina do delírio,
Ri, suspira, soluça, anseia e chora. . .
Marion! Marion!... É noite ainda.
Que importa os raios de uma nova aurora?!...

Como um negro e sombrio firmamento,
Sobre mim desenrola teu cabelo...
E deixa-me dormir balbuciando:
— Boa noite! — formosa Consuelo.