terça-feira, 29 de abril de 2008

PARA FAZER UM ARCO-ÍRIS

Enzo Carlo Barrocco





















Para fazer um arco-íris
precisarei de nuvem
e a água nela contida
e a leveza que ambas carregam.

Precisarei de atmosfera,
de um sol descoberto,
de luz e de mãos,
precisarei de tintas diversas.

Precisarei de olhos que possam
contemplar o que será efêmero,
de respiração compassada,
precisarei de silêncio.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

TRAGÉDIA

Miniconto

Enzo Carlo Barrocco

O homem abriu a porta, como sempre fazia e percebeu, então, embaixo da escada que dava para o outro andar do vasto sobrado, alguém agachado, imóvel, encolhido. Pensou primeiramente que sua mulher estivesse fazendo algum tipo de gracinha. Aproximou-se e percebeu uma poça de sangue. Estremeceu. Correu à cozinha e a porta estava entreaberta. Os filhos!!! Ouviu gritos vindos do banheiro dos fundos. As duas empregadas e os dois filhos estavam trancados lá. Rumaram à sala. Ante ao acontecido o homem não sabia o que fazer...

quinta-feira, 24 de abril de 2008

HILDA HILST: A POETA DE JAÚ

Hilda Hilst
(Jaú 1930 - Campinas 2004)
Poeta, contista, romancista e dramaturga paulista

Devo viver entre os homens
Se sou mais pêlo, mais dor
Menos garra e menos carne humana ?
E não tendo armadura
E tendo quase muito de cordeiro
E quase nada da mão que empunha a faca
Devo continuar a caminhada?

Devo continuar a te dizer palavras
Se a poesia apodrece
Entre as ruínas da CASA que é a tua alma ?
Ai, luz que permanece no meu corpo e cara:
Como foi que desaprendi de ser humana?

quarta-feira, 23 de abril de 2008

A LANTERNA DOS LUMIÈRE – SEAN CONNERY E A ROSA MACERADA

Resenha

por Enzo Carlo Barrocco

EM NOME DA INTOLERÂNCIA



Filme: O Nome da Rosa (Der Name Der Rose). Suspense, 130 min., Alemanha, França, Itália, 1986. Direção: Jean-Jacques Annaud. Com: Sean Connery, Christian Slater, Helmuth Qualtinger, Elia Baskin, Michael Lonsdale, Volker Prechtek, Feodor Chaliapin Jr., Valentina Vargas, F. Murray Abraham.

Com o intuito de participar de um conclave em um longínquo mosteiro na Itália, William de Baskerville (Connery) um monge franciscano e o jovem Adso von Melk (Slater) se vêem diante de uma situação inusitada. Corre o ano de 1327 e a intenção principal do conclave, imagine, é decidir se a igreja deve doar parte de suas riquezas (algo inimaginável até nos dias de hoje). O fato é que ao chegarem ao tal mosteiro, Baskervelle e Melk se deparam com uma série de assassinatos dentro do prédio. Baskerville, então, começa uma investigação que se mostra muito intrincada, chegando-se a acreditar que tais acontecimentos seriam obras do demônio. Entra aí a figura de Bernardo de Gui (Abraham) mandado pela cúpula da igreja católica como grão-inquisidor para apurar os fatos. A Santa Inquisição foi a forma que a igreja católica, na idade média, criou para assassinar inocentes em nome de Deus. A fé católica não podia ser abalada, caso contrário o inquirido teria que ir às barras do tribunal. Era o que iria ocorrer caso um culpado fosse apontado, entretanto os motivos são pouco a pouco solucionados. Um excelente filme com o talento usual de Sean Connery, a interpretação clássica de F. Murray Abraham e um jovem Christian Slater começando a carreira; não esquecendo a direção sempre firme de Jean-Jacques Annaud. Andrew Birkin, Gerard Brach, Howard Franklin e Alain Godard são os responsáveis pelo roteiro, a partir de um livro do romancista e ensaísta italiano Umberto Eco nascido em Alexandria no Egito.


DEIXEMOS QUE VENHA O AMANHECER

Enzo Carlo Barrocco




Um sopro leve,
um sopro de luz, dia acabado;
se há um verso para ser escrito
deixo que ele nasça
somente quando eu possa amanhecer.

E nesta madrugada
não precisarei pastorear as estrelas,
nem as flores,
pois a liberdade não pode ser ameaçada.

Não estou sozinho,
outras almas vagam pelos cômodos.
É simples
o que tenho a lhes dizer,
mas agora, não! Deixemos que venha o amanhecer.

quinta-feira, 17 de abril de 2008

O CONTO SERGIPANO DE ALUYSIO MENDONÇA SAMPAIO


Aluysio mendonça sampaio

(Aracaju 1926 - São paulo 2008)
Poeta, contista e ensaísta sergipano


CIDADE INVADIDA

A cidade foi invadida. Gatos metálicos tomaram-na de assalto, correndo incessantes por áspero chão cinzento. Para qualquer lado que se dirigisse, ali estavam eles, frieza de aço, miagem contínua. Era pior que rugir de leão, igual a sussurro de vento tempestuoso batendo em teto de zinco, dia e noite. Pareciam-lhe a princípio inofensivos e quase garbosos no deslizar fluente – agradável até o miar mal murmurado. Só a princípio. Depois apercebeu-se que tinham corpo e garras metálicas, de fácil cravar em carnes flácidas. Daí nasceu-lhe o medo, no começo ínfimo, em pânico após transformado. Não tanto por si, mas pelo pássaro: único no universo, luminosas plumas multicores, cantar extasiante, leveza de vôo, porte de bailado mágico. Costumava grudar-se-lhe ao colo, em doçura de afagos: fragilidade sentida. Precisava protegê-lo, indevassável abrigo contra as garras dos gatos invasores. Com que tristeza passou a impedir-lhe a saída, fechando a janela antes aberta ao sopro da aragem e à azulência do céu. Deu o pássaro para ficar triste, mas não deixava de bicar a vidraça, intransponível transparência entre ele e o espaço. Imaginou, então: o interior da sala não poderia ser redoma e acaso os gatos se enfurecessem quebrariam os vidros, invadindo o âmago do refúgio. Além disso, não poderiam permanecer toda a vida, ela e o pássaro, entre paredes, do mundo isolados por grades de medo. Decidiu construir uma gaiola. Ela própria a fez, paciente aranha a fiar teia protetora, de férrea resistência. Depois colocou o pássaro em seu interior, docilidade inesperada mesmo no amacio de amores e carícia. Todos os dias, gaiola aconchegada ao peito, saía. Via, assustada, passarem céleres os gatos furiosos. Atravessava a rua a correr, fugindo dos metálicos felinos. Chegava ao topo e, lá de cima, olhava a cidade embaixo, os gatos serpenteando as ruas. Não soltava, porém, o pássaro da gaiola, que poderia ele escapar-lhe e, talvez, cair em garras imantadas. Na gaiola protegido, o pássaro contemplava o céu azul, o verde das árvores e cantava, liberta alegria extravasada. Nunca se ouvira cantar tão belo assim! Esquecia o mundo, os outros e até o medo se lhe apagava. Foi quando aconteceu. Vendo o gato diante de si, logo pressentiu a ameaça. Apertou a gaiola contra o peito, firme atitude de defesa. Já não miando e quase a rugir, o gato aprestava o bote, mas o imobilizava luminosidade rubra, a incandescer-lhe os olhos faiscantes. O assalto, porém, foi brusco. Garras afiadas cravaram-lhe a carne, derrubando-a ao chão e de pronto romperam a gaiola: gelatinou-se a grade. O pássaro nem piou. Na queda, ainda viu ensangüentada mancha ao lado, no chão de asfalto – cinzento como o céu distante, os prédios, os gatos e o fundo de sua própria alma.

JIRAU DIVERSO N° 22

JIRAU DIVERSO
Nº 22 – dezembro.2007
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia paranaense de Paulo Leminsk


O POEMA

DESENCONTRÁRIOS
Mandei a palavra rimar,
ela não me obedeceu.
Falou em mar, em céu, em rosa,
em grego, em silêncio, em prosa.
Parecia fora de si,
a sílaba silenciosa.

Mandei a frase sonhar,
e ela se foi num labirinto.
Fazer poesia, eu sinto, apenas isso.
Dar ordens a um exército,
para conquistar um império extinto.


O POETA

Paulo Leminsk, poeta, contista, romancista, ensaísta e compositor paranaense (Curitiba 1944 – Idem 1989) foi um escritor que andou pelas veredas da experimentação sendo, também, adepto da poesia concreta no Estado do São Paulo. Como compositor teve canções gravadas por Caetano Veloso e pela Banda a cor do Som. Joyce, Lennon. Beckett e Jarry tiveram obras traduzidas por Leminsk. Em 1995 foi agraciado com o prêmio Jabuti de Poesia.
***
ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis

Lâmina Mea ou Mulher Não chora (Contos)
Autor: Salomão Laredo
Edição: Salomão Laredo (Editora)
Pequenos contos engendrados pela mente criadora de Salomão. Textos surpreendentes que levam o leitor a experimentar o fino humor deste excelente escritor.

Estrela da Minha Vida (Crônicas)
Autor: Edson Lodi
Edição: Entrefolhas
Relatos experimentados pelo autor como membro do Centro Espírita Beneficente União do Vegetal. “Histórias do Sertão Caboclo”, como bem afirma, relatando paisagens e personagens da história daquela instituição.

Sertão do Reino
Autor: Marcos Quinan
Edição: Projeto Editorial
Quinan adentra por um emaranhado de situações tendo a Cabanagem (movimento ocorrido no Pará entre 1935 e 1940) como pano de fundo. Índios, negros alforriados, escravos, mestiços são os personagens de uma esplêndia narrativa.

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A FRASE DI/VERSA
O homem está sempre disposto a negar aquilo que não compreende.
- Luigi Pirandello (Agrigento 1867 – Roma 1936) dramaturgo italiano


***

DA LAVRA MINHA

SIMBIOSE
 
Enzo Carlo Barrocco

Esperemos a palavra
nascida de inumeráveis gargantas,
a simbiose entre homens e ruas,
planta indomável das calçadas. 


Porque de agora em diante
é impossível abortar a fala
parida sobre
as muitas pautas dos gramáticos.

Poetas mencionarão sua geografia,
península léxica,
a nova peste contaminará
as páginas dos livros que virão.

quarta-feira, 16 de abril de 2008

O DIÁRIO DOS PENSADORES N° 24

A técnica é uma conquista do homem, pois representa o domínio da inteligência sobre as coisas.
- Juscelino Kubitschek (Diamantina 1902 – Em um acidente de carro em Resende, RJ 1976) político mineiro, ex-presidente da República

O segredo de um negócio está em saber alguma coisa que ninguém sabe.
- Aristóteles Onassis (Esmirna, hoje território Turco 1906 – Paris 1975) empresário grego, em seu tempo, o homem mais rico do mundo

Estamos todos num mesmo barco em mar tempestuoso e devemos uns aos outros uma terrível lealdade.
- Gilbert Keith Chesterton (Londres 1874 – Idem 1936) romancista e ensaísta inglês

Acima de todas as liberdades, dê-me a de saber me expressar, de debater com autonomia de acordo com a minha consciência.
- John Milton (Londres 1608 – Idem 1674) poeta inglês

Toda teoria em qualquer campo só é válida quando nos servimos dela para ultrapassá-la.
- André Gide (Paris 1869 – Idem 1951) romancista e ensaísta francês

A maneira mais rápida de se terminar uma guerra é perdê-la.
- George Orwell (Nova Delhi 1903 – Londres 1950) romancista e ensaísta inglês nascido na Índia

Fanático é quem não quer mudar de idéia e não quer mudar de assunto.
- Winston Churchill (Woodstock 1874 – Londres 1965) político e historiador inglês

É próprio do homem errar; só o ignorante, porém, persevera no erro.
- Marco Túlio Cícero (Arpino 106 – Roma 43 a C.) filósofo, orador e político romano

Pode ser que nosso papel nesse planeta não seja de criaturas de Deus, mas de seus criadores.
- Arthur Clarke (Minehead 1917) contista e novelista inglês

Não importa o que os outros pensem, por que eles vão pensar de qualquer maneira.
- Paulo Coelho (Rio de janeiro 1947) romancista, compositor e jornalista fluminense

O grande homem é o homem livre.
- Confúcio (Zon 551 – Idem 479 a C.) filósofo chinês

terça-feira, 15 de abril de 2008

PÁSSAROS DO ANOURÁ - POETRIX - 10ª TRÍADE






























A POESIA ILUMINADA DE HELENA KOLODY


Helena Kolody
(Cruz Machado 1912 - Curitiba 2004)
Poeta paranaense

Ballet

Nuvem humana,
gaivota lunar,

o astronauta flutua,

livre da gravidade

como os ressuscitados.
Constelações iluminam seu bailado,
no tablado da noite universal.

segunda-feira, 14 de abril de 2008

PERSONAGENS BIZARRAS - O MUNDO FANTÁSTICO DE B. TRAVEN

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco


O Visitante Noturno: o mundo fechado de B. Traven

O Visitante Noturno (Editora Conrad, 2008, 128 páginas), reúne duas novelas da lavra de B. Traven (Chicago 1890 - ? 1969) novelista e romancista americano, que é um dos escritores mais misteriosos do século passado. Traven fez do México seu país de morada, resguardando hermeticamente sua real identidade, cujo maior trabalho é o romance “O Tesouro de Sierra Madre, levado ao cinema pelo Diretor John Huston (Nevada, Missouri 1906 – Middletown, Rodhe Island 1987) B. Traven, inclusive, era o autor favorito de Albert Einstein. As fogueiras nazistas costumavam ser alimentadas com os livros de B. Traven. As duas novelas que fazem parte do livro não fogem ao estilo utópico do autor que fala de aventureiros e lugares remotos, tendo como pano de fundo a selva mexicana. Em “O Visitante Noturno”, conto que dá título ao livro, um homem tipicamente citadino se muda para os confins da selva mexicana, tendo contato , apenas, com um antropólogo amador recluso há vários anos. Em “Macário”, a segunda novela, o único sonho do protagonista é comer sozinho um peru assado longe dos componentes de sua numerosa família: esposa e 11 filhos. Entretanto, prestes a realizar seu desejo, três visitantes interplanetários o interpelam levando o enredo da novela a tomar um desdobramento inusitado. Esta novela foi recolhido pelos escritores argentinos Jorge Luis Borges, Adolfo Bioy Casares e Silvina Ocampo e faz parte da “Antologia de la Literatura Fantástica” organizada em 1940, que reúne 81 contos nesse estilo. A leitura é agradabilíssima, clara e prazerosa e tem a tradução de Luciano Machado. É um conselho: se você quiser travar contato com o melhor da literatura, então não deixe de ler “O Visitante Noturno” , dois excelentes textos saídos da mente criadora de B. Traven.

UM TRECHO DA NOVELA “O VISITANTE NOTURNO”

Comprei de um mexicano vinte hectares de terra desocupada, dominada por densa vegetação tropical. Adiantei-lhe vinte e cinco pesos, e o resto seria pago na entrega dos títulos.

Construí uma cabana no estilo indígena e comecei a cultivar a terra. Não era uma tarefa fácil, ali no meio da mata, mas de todo modo pus mãos à obra.

Logo descobri que não era o único homem branco da região; uma hora em meu cavalo me levou à casa do vizinho mais próximo, um certo doutor Cranwell. A aldeia, povoada por camponeses índios, ficava a vinte quilômetros, e o armazém, a vinte e nove. Próximo ao armazém, duas famílias americanas tentavam a sorte; além de se dedicarem à agricultura e à compra e o embarque de carvão e lenha produzidos pelos índios locais, cada uma delas mantinha um bazar de aspecto miserável.

O ranchito do doutor Cranwell situava-se numa colina no meio do mato, assim como o meu. Ele vivia sozinho em um bangalô de três aposentos, construído da forma mais rudimentar. Eu não sabia por que ele fora se enterrar naquela mata e nunca procurei saber. Não tinha nada com isso.

Ele se dedicava à criação de animais, ou ao que ele chamava de criação. Tinha duas vacas, dois cavalos, três mulas e algumas colméias. Os pássaros silvestres comiam as abelhas o tempo todo, pegando-as ao entrar ou sair da colônia. Isso limitava sua produção a um volume suficiente apenas para o doutor saborear um pouco de mel no café da manhã de vez em quando

Seus vizinhos mais próximos eram duas famílias de índios, que viviam a pouco menos de um quilômetro de seu ranchito. Ele contratara os homens para o trabalho agrícola e as mulheres para o parco serviço doméstico.

O doutor Cranwell passava a maior parte do tempo lendo. Quando não se dedicava à leitura, deixava-se ficar sentado à varanda do bangalô, contemplando os milhares de quilômetros quadrados de selva que se estendiam à sua frente a perder de vista. Aquela mata era de um verde triste e poeirento, que só se iluminava durante quatro meses do ano, depois do fim da estação das chuvas.

Alguns agrupamentos indígenas, nenhum deles com mais de três famílias, espalhavam-se pela vasta região, e a única maneira de saber onde se encontravam era pela fumaça que podia ser vista, em determinadas horas do dia, pairando acima dos jacalitos1 ocultos.

Uma pessoa comum poderia ficar esgotada, quem sabe até perder o juízo, se não pudesse contemplar nada além daquela vasta extensão de floresta sombria. O médico, porém, gostava daquela paisagem.

E eu também. Podia passar horas contemplando aquela selva sem nunca me cansar dela. Na verdade, o que me interessava não era o que eu conseguia ver. Era poder imaginar os grandes e pequenos episódios que se desenrolavam naqueles matagais espinhosos lá embaixo. Não havia um minuto de descanso na eterna batalha pela sobrevivência, pelo amor. Criação e destruição... Eu não tinha bem certeza, mas imaginava que o médico sentia a mesma coisa. Só que ele nunca disse isso.

Minha casa ficava na mesma elevação que a sua, embora um pouco mais abaixo. Eu estava bem mais longe dos vizinhos que ele. Só muito raramente a solidão me incomodava. Quando isso acontecia, eu selava meu pônei e ia visitar o médico, só para ver um rosto humano e ouvir a voz de alguém.

Uma floresta tropical é tão cheia de vida que é simplesmente impossível entregar-se à tristeza quando se é capaz de sentir todo o universo em cada pequeno inseto, em cada lagarto, em cada trinado de pássaro, em cada farfalhar de folhas, em cada cor e forma de flor. De vez em quando, porém, eu sentia um arrepio de medo e meu coração fraquejava. Era como estar sozinho num avião, rodeado de nuvens, com o motor rateando e sem instrumentos de orientação. Ou como estar sozinho num pequeno barco, longe da costa, sem nenhum pássaro à vista, num mar silencioso, com o Sol começando a declinar.

O médico não era de falar muito. Viver sozinho na mata tropical faz você ficar silencioso, embora rico em pensamentos. Não se passa um minuto do dia ou da noite sem que a selva lhe fale, seja com sua voz contínua, incessante, seja por seu eterno crescimento e decomposição. Fatalmente você chega à conclusão de que a vida só pode ter um sentido: "Aproveite-a enquanto ela durar e desfrute dela o máximo que puder, porque a morte está dentro de você desde o momento em que nasceu".

Em minhas visitas, o médico e eu nos deixávamos ficar em nossas cadeiras de balanço por duas ou três horas sem que nenhum de nós dissesse uma palavra. Não sei por que, porém, isso nos contentava.

(...)


sexta-feira, 11 de abril de 2008

RENASCIMENTO

Enzo Carlo Barrocco



















A manhã põe a cara na janela
a preguiça matinal, candidamente,
encontra um sol esguio, incongruente;
o dia deslumbrante se revela.

A rua está deserta, ainda é cedo,
brinca de correr a luz-menina;
um anjo azul apaga a lamparina
que à noite, sem querer, queimou-lhe o dedo.

As coisas se preparam para o dia,
mãos que se ajustam, mãos marcadas;
consome a alma (cabe nestes versos?)

olhar o mesmo céu o tempo inteiro.
No entanto que prazer sentir de novo
no ar deste manhã o mesmo cheiro.

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A BAIANIDADE NOS VERSOS DE FRED


Fred de Souza Castro
(São Gonçalo dos Campos 1931)
Poeta baiano


MINHA TERRA

Minha terra, não palmeiras,
vou cantar no berimbau;
no eco de uma cabaça
por derréis de mel coado.
Vou deixar o meu recado
- mensagem de minha raça -
escrito com pedra e pau
nas rodas das capoeiras.
Se não encontrar barreiras
atravesso onde der vau;
levo tudo na chalaça,
seje benção ou pecado.

terça-feira, 8 de abril de 2008

AS JANELAS SE DÃO BEM COM AS MANHÃS

Enzo Carlo Barrocco




















As janelas se dão bem com as manhãs;
sol e vespas rodam as casas,
nenhum assombro, nenhum contratempo.
Lindos olhos ocupam a paisagem.

As claras horas seguem ofuscantes.
Risos algures enchem meus versos
de luz, de beleza, de harmonia.

Pelo que dá para ver deste ponto
há poesia no estirão da rua,
há sossego; você sabe o que quero dizer!
As janelas se dão bem com as manhãs.

MÁRCIA FLAUSINA: A POESIA DA ZONA DA MATA MINEIRA


Márcia Flausina
(Cataguases 1947)
Poeta mineira

Cores

Azuis me olham
e eu verde
olhos azuis

Verde
imatura
verde
nova
verde
fora de época

Épica.

segunda-feira, 7 de abril de 2008

JIRAU DIVERSO N° 21

JIRAU DIVERSO
Nº 21 – novembro.2007
por Enzo Carlo Barrocco

A POESIA CEARENSE DE SÉRGIO MATTOS

O Poema

DESAFIO

Escreve com silencioso espanto
Meus dedos possuem um sentimento comum:
Eles procurar as formas simples.

Minha ânsia e segredos repousam
em minhas mãos
– estoque de reflexos sentimentais –
Os mistérios foram sugados
e minha pena é minh’alma.
Quem poderá deter a vida
que corre em minhas mãos?


O Poeta

Sérgio Mattos, cearense de Fortaleza, poeta, ensaísta e jornalista, no convés da fragata desde 1948, participou ativamente dos movimentos literários da Bahia, onde está radicado desde 1959. Já participou de inúmeras coletâneas e alguns dos seus livros foram traduzidos para a língua inglesa. Seus artigos foram publicados no Brasil e no exterior. A poesia brasileira atual ganha em qualidade com o trabalho de Sérgio.

***

ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis

Jackson do Pandeiro – O Rei do Ritmo (ensaio)
Autor: Fernando Moura e Antônio Vicente
Edição: Editora 34
A vida e a obra de Jackson do Pandeiro dissecadas em 416 páginas. Um trabalho de fôlego, mostrando, ainda, a trajetória da riquíssima música paraibana e nordestina. Um livro de ouro.

Cenas Brasileiras (crônicas)
Autora: Raquel de Queiroz
Edição: Editora Ática
Deliciosos contos os quais a autora achou por bem nomeá-los de crônicas por serem fatos acontecidos no seu passado. Belíssimos e comoventes acompanhados da lírica narrativa de Raquel .

O Suicídio Perfeito (novela)
Autor: Orlando Carneiro
Edição do Autor
Um excelente trabalho literário. Carneiro põe a nu almas dissimuladas, desconfiadas, inescrupulosas. O adultério é o principal tempero desta novela que tem um final surpreendente.

***

A FRASE DI/VERSA

Fique grato à vida, pois ela lhe dá a chance de amar, trabalhar, brincar e admirar as estrelas.
. Henry Van Dike (Germantown 1852 – Idem 1933) poeta, contista e ensaísta americano

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DA LAVRA MINHA

LINHAS BARROQUIANAS
Poemas de um verso só
Nº 2

Enzo Carlo Barrocco

SAUDAÇÃO
Ave a vida, vento invariável!

LUAR DE ONTEM
Uma lua à madrugada ilumina o Anourá.

APARIÇÃO
Rosa surge; vestido esvoaçante.

BEETHOVEN
Um stradivarius – a luz, o belo, a música...

POESIA RIBEIRINHA
Uma lamparina. Poema num casebre ao largo

sexta-feira, 4 de abril de 2008

O DIÁRIO DOS PENSADORES N° 23

Como se os levasse dentro de minha ansiedade encontro os heróis onde os procuro.
- Pablo Neruda (Parral 1904 – Santiago 1973) poeta chileno

Sermos felizes quando pudermos tornar felizes os que amamos.
- Kahlil Gibran (Bsharri 1883 – Nova York 1931) poeta libanês

A educação pelo medo deforma a alma.
- Coelho Neto (Caxias 1864 – Rio de Janeiro 1934) romancista, contista, novelista e poeta maranhense

As fontes de todos os problemas são três: barra de ouro, barra de terra e barra de saia.
- Tancredo Neves (São João Del Rei 1910 – São Paulo 1985) político mineiro e ex-presidente da República

A maior estupidez é perder de vista o que se está tentando fazer.
- Friedrich Nietzsche (Röcken 1844 – Weimar 1900) filósofo alemão

O importante para mim, antes de tudo, é lutar contra a miséria imensa que pesa sobre o mundo. Contra a discriminação, os donos da terra. Os privilégios que marcam o mundo capitalista.
- Oscar Niemeyer (Rio de Janeiro 1907) arquiteto mineiro

Mantenha-se forte diante do fracasso e livre diante do sucesso.
- Jean Cocteau (Maison Laffitte 1889 - Milly la Forêt 1963) poeta, dramaturgo, novelista e cineasta francês

A fidelidade é um pacto de posse com a outra pessoa. Todo indivíduo tem direito a um espaço privado. Isso serve para o homem e para a mulher.
- Cláudio Nucci (Jundiaí 1956) cantor e compositor paulista

É certo que uma mulher seja, acima de tudo, humana. Eu sou, antes de tudo, uma mulher.
- Anaïs Nin (Paris 1903 – Los Angeles, EUA 1977) novelista francesa

Que os nossos esforços desafiem as possibilidades. Lembrai-vos que as grandes proezas da história, foram conquistadas daquilo que parecia impossível.
- Charles Chaplin (Londres 1889 - Corsier-sur-Vevey, Suíça 1977) ator e cineasta inglês

É difícil acreditar que um homem esteja dizendo a verdade quando nós mentiríamos se estivéssemos no seu lugar.
- Henry Louis Mencken (Baltimore 1880 – Idem 1965) jornalista e ensaísta americano



quinta-feira, 3 de abril de 2008

ROBERTO CARLOS E A MÚSICA NO JIRAU

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco



TÍTULO: O INIMITÁVEL
INTÉRPRETE: ROBERTO CARLOS
GRAVADORA: COLÚMBIA

Roberto Carlos, realmente, é um artista que agrada todos os gostos, pois não há, acredito, uma pessoa sequer que não goste de, pelo menos, uma música do Rei. “O Inimitável” foi lançado em 1968, em vinil, evidentemente, e marca a transição na carreira de Roberto. Este álbum emplacou todas as faixas. Naquele ano de 1968, Roberto Carlos, então com 27 anos, se casaria, em Santa Cruz de la Sierra, na Bolívia, com Cleonice Rossy, a mãe de seus filhos Luciana (nascida em 1971) e Roberto Carlos Segundo, o Segundinho, que também atende pelo nome de Dudu Braga (nascido em 1969). As parcerias com o amigo de fé Erasmo Carlos, rendeu excelentes músicas para este trabalho: “Se Você Pensa”, “É Meu, É Meu, É Meu”, “Eu Te Amo, Te Amo, Te Amo”, “As Canções Que Você Fez Pra Mim”. Antônio Marcos também deixou seu talento em “E Não Vou Deixar Você Tão Só”; Edson Ribeiro e Hélio Justo, em “Ninguém Vai Tirar Você de Mim”; Getúlio Côrtes, em “Quase Fui lhe Procurar”; Helena dos Santos, em “Nem Mesmo Você”; o duradouro Luiz Ayrão, em “Ciúme de Você”; Renato Barros, que tinha uns amigos conhecidos como Blue Caps, em “Não Há Dinheiro Que Pague”, Paulo César Barros e Getúlio Côrtes, em “O Tempo Vai Apagar” e até Renato Teixeira, o engenheiro caipira, na parceria com Beto Ruschel, em “Madrasta”, tudo na voz do inimitável Roberto Carlos. É de bom alvitre dizer, também, que naquele ano de 1968, Roberto se tornaria o primeiro estrangeiro a vencer o Festival de San Remo, na Itália, com a música “Canzone Per Te”, de Sérgio Endrigo. Esse trabalho, em disco Vinil, foi lançado, como já dito, em 1968 pela gravadora CBS e relançado mais recentemente em CD pela gravadora Columbia. Portanto, nos deliciemos com as doze faixas deste excelente álbum.

quarta-feira, 2 de abril de 2008

A POESIA MARANHENSE DE FERREIRA GULLAR


Ferreira Gullar
(São Luís 1930)
Poeta, contista, cronista, dramaturgo, telenovelista, crítico de arte e ensaísta maranhense

OCORRÊNCIA

Aí o homem sério entrou e disse: bom dia.
Aí outro homem sério respondeu: bom dia.
Aí a mulher séria respondeu: bom dia.
Aí a menininha no chão respondeu: bom dia.
Aí todos riram de uma vez
Menos as duas cadeiras, a mesa, o jarro, as flores
as paredes, o relógio, a lâmpada, o retrato, os livros
o mata-borrão, os sapatos, as gravatas, as camisas, os lenços.