quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

UMA FLOR DO CANTEIRO DE CARMEM


Carmem Vasconcelos
(Angicos 1965)
Poeta potiguar

Terceira cantiga de abril

Agora te conheço, amor perdido,
Macerando meu corpo animado e morto.
Agora te conheço, amor perdido,
Planando numa dessas folhas de vida.
Agora te conheço, amor perdido,
Súbito reverso dos meus ossos.
Agora te conheço, amor perdido,
Cinza de alumínio, câncer amarelecido,
No entanto, padeço de liberdade.

JUSTAPOSIÇÃO

Enzo Carlo Barrocco



























O mesmo céu sobre todos os gozos,
o mesmo azul sobre todas as dores.

Sempre o mesmo caminho,
os mesmos rastros ao longo do trajeto;
um menino de alpercatas gastas,
uma senhora gorda de sandálias plásticas,
uma moça de tênis caros,
um homem engravatado de sapatos pretos,
um velho coxo de uma chinela só... 

O mesmo céu sobre todas as dores,
O mesmo azul sobre todos os gozos.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

BRUMA E HOMEM

Enzo Carlo Barrocco







Um velho barco se desponta breve
sobre a baía.
A bruma e o homem se debruçam alvos;
arrimo e luminária.

Ante ao desmantelo desse cais de sonhos,
antes das falas, do suor, do caos,
um silêncio se estende hirto
sob a neblina, sobretudo; sobre tudo.

Que pena que amanhece!
Bruma e homem se dispersam
vagarosamente
do gris inapreciável da paisagem.
Sabe-se lá, amanhã, outro poema!

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

CINCO DÚZIAS DE POEMAS – UM PRESENTE DE GREGO

Resenha

por Enzo Carlo Barrocco



60 Poemas: um pequeno apanhado de Kaváfis

A poesia grega vem à baila com o excelente trabalho 60 Poemas (Ateliê Editorial, 2007, 160 páginas), escritos pelo excepcional Konstantinos Kaváfis (Alexandria 1863 – Idem 1933) magistralmente traduzidos por Trajano Vieira (professor de Língua e Literatura Grega do IEL) dando a oportunidade para o leitor brasileiro entrar em contato com a poesia grega mais recente. A sutileza coloquial sempre acompanhou Kaváfis em sua poesia e isso Trajano busca levar para sua tradução. Segundo alguns críticos, existe algo de Borges em Kaváfis, uma vez que sua maneira ambígua de escrever dá a ele essa conotação. A poesia deste autor grego excita sempre a uma provocação, pois a marginalidade permanente no que diz respeito a memória é um dos seus principais argumentos. Kaváfis desdenha dos chamados falsos artistas da palavra, que ele caracteriza como verborrágicos e prolixos. Nesse ponto concordo plenamente com o autor grego. Lembro aqui uma frase de Mario Quintana, um dos nossos maiores poetas: “Exatamente por execrar a chatice, a longuidão, é que eu adoro a síntese”. Pois Bem! O espírito Alexandrino de Kaváfis é obscurecido, em certas traduções, pela maneira prosaica na qual é vertido. Portanto, se entregue à poesia inconteste de Konstantinos Kaváfis, poeta de Alexandria, um dos berços da civilização.


UM POEMA DE KAVÁFIS

ESPELHO DA ENTRADA


À entrada da mansão
havia um grande espelho muito antigo,
comprado pelo menos há mais de oitenta anos.

Um rapaz belíssimo, empregado de alfaiate
(e nos domingos atleta diletante)
estava ali com um pacote.

Deu-o a alguém da casa, que o levou para dentro
com o recibo. O empregado do alfaiate
ficou sozinho, à espera.

Acercou-se do espelho e mirou-se
para ajeitar a gravata. Após cinco minutos,
trouxeram-lhe o recibo e ele se foi.

Mas o antigo espelho, que vira e revira
nos seus longos anos de existência
coisas e rostos aos milhares;
mas o antigo espelho agora se alegrava
e exultava de haver mostrado sobre si
por um instante a beleza culminante.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2008

POEMA PARA NÃO DESESPERANÇAR

Enzo Carlo Barrocco





















Falemos de flores, bem como de pedras,
de árvores, de pores-do-sol,
porque hoje ainda é tempo
e o sol ilumina nossos rostos. 

Falemos, portanto, da alegria, bem como do riso,
das crianças, do luar,
porque Deus recostado em nossas portas
olha-nos com extraordinária simpatia.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2008

A POESIA LATINO-AMERICANA DE OCTÁVIO PAZ

IRMANDADE


Octávio Paz
Mixcoac 1914 – Cidade do México 1998
Poeta e ensaísta mexicano

Sou homem: duro pouco
e é enorme a noite.
Mas olho para cima:
as estrelas escrevem.
Sem entender compreendo:
Também sou escritura
e neste mesmo instante
alguém me soletra.



(Tradução: Haroldo de Campos)

JIRAU DIVERSO Nº 16

JIRAU DIVERSO
Nº 16 – junho.2007
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia fluminense de Fagundes Varela

O POEMA

Soneto

Desponta a estrela d'alva, a noite morre.
Pulam no mato alígeros cantores,
E doce a brisa no arraial das flores
Lânguidas queixas murmurando corre.

Volúvel tribo a solidão percorre
Das borboletas de brilhantes cores;
Soluça o arroio; diz a rola amores
Nas verdes balsas donde o orvalho escorre.

Tudo é luz e esplendor; tudo se esfuma
Às carícias da aurora, ao céu risonho,
Ao flóreo bafo que o sertão perfuma!

Porém minh'alma triste e sem um sonho
Repete olhando o prado, o rio, a espuma:
- Oh! mundo encantador, tu és medonho!

O POETA

Luis Nicolau Fagundes Varela, poeta fluminense (Rio Claro, RJ 1841 – Niterói 1875) destaca-se por uma obra marcada pela brasilidade. O poeta antecede ao Condoreirismo, assim como à literatura abolicionista que mais tarde escritores renomados viriam abordar. Atuante e engajado, Varela, por outro lado, teve uma vida boêmia e desregrada que o levou ao alcoolismo. Um poeta essencial e sua belíssima obra.

***

ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis

São Bernardo (Romance)
Autor: Graciliano Ramos
Edição: Editora Record
Um homem rude, sem instrução e violento vivendo uma tragédia engendrada por ele mesmo nos sertões nordestinos. Um clássico da literatura brasileira.

Rebanhos de Pedras & Esta Terra (Poesias)
Autor: Ademir Braz
Edição: Usimar Cultural
Dois períodos distintos da poética de Ademir. “Esta Terra”, publicado em 1981, foi seu primeiro livro. “Rebanhos de Pedras” é um trabalho mais recente, ambos eivados de lirismo.

Publicação Coletiva – Quatro Autores (Poesias)
Autores: Jorge André, Kildervan Abreu, Eduardo Dias e Marcio Leno Maués
Edição: Secult - FCPTN
Poesia a quatro mentes patrocinada pela Secretaria de Cultura do Pará. Jovens poetas paraenses trazendo à luz a literatura nortista. Poesias de ótima qualidade.

A FRASE DI/VERSA

Preservar a saúde com regras tão severas e uma doença preocupante.
- La Rochefoucauld (Paris 1613 – Idem 1680) filósofo e ensaísta francês.

***

DA LAVRA MINHA

AO INOCENTE POETA QUE CHEGA

Enzo Carlo Barrocco

Se quiseres ganhar dinheiro com literatura
Desce do teu cavalo
Que por trás da mata
Um temporal se arma.

Densa e espessa sobre a estrada seca,
A chuva cairá sem tréguas,
Atocaiando os bichos, embuçando os pássaros,
Atrasando teu caminho para casa.

E verás, então, decepcionado e triste,
Que nesse rumo (que não tem mais volta)
Não acharás, sequer,
Uma moeda antiga.

quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 18

A lei é poderosa; mais poderosa, porém, é a necessidade.
- Goethe (Frankfurt 1749 – Weimar 1832) poeta, dramaturgo, ensaísta e romancista alemão

A prova de que estou ficando velho é que, cada vez mais, eu chamo
os outros de você e os outros me chamam de senhor.
- Max Nunes (Rio de Janeiro 1922) compositor, produtor de TV, contista e humorista fluminense

Um hábito duradouro de não pensar em nada errado dá uma aparência superficial de ser correto.
- Thomas Paine (Thetfort 1773 – Nova York 1809) político, filósofo, matemático, físico, teólogo e ensaísta inglês

A alegria é o melhor remédio que o céu fornece aos homens, capaz de curar todas as chagas.
- Torres Pastorino (Rio de Janeiro 1910 – Brasília 1980) dramaturgo, radialista, filósofo e jornalista fluminense

A poesia é sempre um ato de paz. O poeta nasce da paz como pão nasce da farinha.
- Pablo Neruda (Parral 1904 – Santiago 1973) poeta chileno

A ironia, planta rara, não viça em mato bravo; o humor exige estufa.
- Afrânio Peixoto (Lençóis 1876 – Rio de Janeiro 1947) romancista, ensaísta, crítico, político e historiador literário baiano

A pintura nunca é prosa. É poesia que se escreve com versos de rima plástica.
- Pablo Picasso (Málaga 1881 – Mougins, França 1973) pintor e escultor espanhol

A meia idade começa quando se deixa de recriminar contra a geração dos pais para recriminar contra a geração dos filhos
- Laurence J. Peter (Vancouver 1919 – Palos Verdes, EUA 1990) cientista e ensaísta canadense

A incerteza que esvoaça, desgraça muito mais do que a própria desgraça.
- Menotti del Picchia (São Paulo 1892 – Idem 1988) poeta paulista

É egoísta achar que só você pode fazer uma pessoa feliz e para o resto da vida.
- Patrícia Pillar (Brasília 1964) atriz nascida no Distrito Federal

A linguagem política dissimula para fazer as mentiras soarem verdadeiras e para dar aparência consistente ao puro vento.
- George Orwell (Nova Delhi 1903 – Londres 1950) romancista e ensaísta inglês nascido na Índia

quarta-feira, 16 de janeiro de 2008

CARLITO AZEVEDO: O POETA DA ILHA

ROI


Carlito Azevedo
Rio de Janeiro 1961
Poeta e crítico literário fluminense

Rói qualquer possibilidade de sono
essa minimalíssima música
de cupins esboroando
tacos sob a cama

imagino a rede de canais
que a perquirição predatória
possa ter riscado
pelo madeirame apodrecido

se aguço o ouvido
capto súbito
o mundo dos vermes

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

CANÇÃO NOTURNA

Enzo Carlo Barrocco



Silêncio gris, noite pequenina
lua vergada, madrugada urgente
casinha simples por sobre a colina.

Noite adentro solidão crescente,
seus lábios pretos me dirão suaves
palavras gastas, repentinamente.

E o poeta (criatura esparsa)
sorve a noite gota a gota; o brilho
momentâneo dessa bela farsa.

Casinha simples por sobre a colina,
lua vergada, madrugada urgente,
silêncio gris, casa pequenina.

POEMA PARA OS AFLITOS

Enzo Carlo Barrocco



Vens morrendo com as mãos

ensagüentadas; assassinato
que testemunhei.
Onde estarão polícia e jornalismo?

Um punhal de aço e de fúria
brilha nos olhos das mulheres apavoradas,
a morte é horizontal;
luz para os teus olhos cansados.