terça-feira, 30 de outubro de 2007

POEMA PARA NÃO ESQUECER

Enzo Carlo Barrocco























Venho pouco,
meus lábios de vime,
a solidão na face,
o que se possa doer. 

Venho longo
e minha sombra
sobre as folhas gretadas
de azul e mármore. 

Venho, assim,
nesta nau grotesca;
singra a quilha o corpo gris...
venho escanchado no lombo do poema.

HAROLDO DE CAMPOS: O IDEALIZADOR DO CONCRETISMO


Haroldo de Campos
São Paulo 1929 - Idem 2003
Poeta paulista


Nosferatu: Nós / Torquato

putresco

putresco

putresco

torquato: teus últimos dias de paupéria me

vermicegos enrolam a substância da treva
vampiros cefalâmpados
(disse)

mas agora put
resco
put
(horresco
referens)
resco
sco
sc
o

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

OFÍCIO

Enzo Carlo Barrocco



É bela, meu poeta, a tua
boca,
lua cheia e flava
na noite feia;
raio esplendoroso chicoteando
o limiar do horizonte.

Dê-me uma frase
e se ilumina-me os olhos.

Retira, meu poeta, da horrível
madrugada,
uns pirilampos
e os coloca na última
palavra
do teu verso.


sexta-feira, 26 de outubro de 2007

UM ÚNICO POEMA

Enzo Carlo Barrocco



 

















Nos galhos retorcidos da manhã
os pássaros repousam - luz e paz -
que ainda dá tempo de criar
um céu turquesa que não vemos mais.

Ainda resta um pouco de silêncio
nos lábios amarelos destes dias,
que o tempo se encaminha bem depressa
a um não sei quê de melancolias.

Eu bem sei, ainda, que dá tempo
de um poema, um único poema,
se é loucura, então que seja extrema;

súbito as aves repousadas,
num único revoo riscam a manhã
com suas cores híbridas/douradas.


UM MINICONTO DO GENIAL KAFKA


Franz Kafka
Praga 1883 - Viena, Áustria 1924
Contista e romancista theco



A PARTIDA

Ordenei que tirassem meu cavalo da estrebaria. O criado não me entendeu.
Fui pessoalmente à estrebaria, selei o cavalo e montei-o. Ouvi soar à distância
uma trompa, perguntei-lhe o que aquilo significava. Ele não sabia de nada e
não havia escutado nada. Perto do portão ele me deteve e perguntou: – Para
onde cavalga senhor? – Não sei direito – eu disse –, só sei que é para fora
daqui, fora daqui. Fora daqui sem parar; só assim posso alcançar meu
objetivo. – Conhece então o seu objetivo? – perguntou ele. – Sim –
respondi – Eu já disse: “fora-daqui”, é esse o meu objetivo. – O senhor não
leva provisões – disse ele. – Não preciso de nenhuma – disse eu. – A
viagem é tão longa que tenho de morrer de fome se não receber nada no
caminho. Nenhuma provisão pode me salvar. Por sorte esta viagem é
realmente imensa.

Tradução: Lúcia Nagib

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

COM PIERLUIGI COLLINA POR OUTROS CAMPOS DE TRIGO

por Enzo Carlo Barrocco


Collina: eleito seis vezes o melhor árbitro de futebol do mundo

Pierluigi Collina, italiano de Bolonha, ex-árbitro de futebol, atualmente consultor financeiro, no convés da fragata desde 1960, foi considerado o melhor árbitro do mundo entre 1998 e 2003. De figura peculiar, careca e com os olhos esbugalhados, ele alcançou uma posição nunca antes imaginada. Collina é uma pessoa extremamente modesta tendo afirmado, certa vez, que não era brilhante na carreira, Perguntado se torce por um time em particular, Collina responde que sim, mas não é um time de futebol, e sim o time de basquete Fortitudo Bologna de sua cidade natal. Por volta de 1984, Collina foi acometido por uma doença chamada alopecia que provoca a queda de todos os pêlos do corpo. Em 1995, com 43 partidas pela Séria A, Collina foi promovido ao quadro da FIFA. Sua primeira grande ocasião foi a final dos Jogos Olímpicos de 1996 entre Nigéria e Argentina, vencida pela seleção africana. Participou, também, da Copa do Mundo de 1998, na França e daí por diante até 2005 participou dois principais torneios de futebol do mundo . A final da Copa de 2002, disputada na Coréia e Japão, entre Brasil e Alemanha, quando a Seleção Brasileira venceu por 2 X 0 se tornando pentacampeão mundial, foi dirigida com extrema competência por Collina. Em 2003 se tornou o embaixador da Cruz Vermelha para o apoio às crianças vítimas da guerra. Publicou nesse ano o livro “Minhas Regras do Jogo. O que o Futebol me Ensinou na Vida” e foi eleito pela sexta vez consecutiva o melhor árbitro do ano pela IFFHS (Federação Internacional de História e Estatísticas do Futebol). Em 2004, com 27 anos de carreira, foi agraciado com o título de Doutor Honoris em Ciência do Esporte pela Universidade Inglesa de Hull. O esporte mundial deve muitíssimo ao talento insofismável de Pierluigi Collina. Afirmou ele, certa vez: “Não acho que alguém deva querer ser como outra pessoa. O importante é saber o que tem de ser feito para chegar a um alto padrão, e espero que tudo o que fiz seja admirado pelos outros árbitros. Só se chega a este padrão trabalhando duro”. Vindo de Collina, é mais do que um conselho: é ordem. Atualmente Collina vive na cidade de Viareggio na região da Toscana, ao lado da esposa Gianna e das duas filhas. Eu particularmente tive a sorte de ter assistido algumas dezenas de partidas arbitradas pelo grande Collina.

terça-feira, 23 de outubro de 2007

PÁSSAROS DO ANOURÁ - Poetrix - 7ª Tríade




A LOUCURA SENSATA DE ANA CRISTINA CÉSAR


Ana Cistina César
Rio de Janeiro 1952 _ idem 1983
Poeta fluminense

FISIONOMIA

não é mentira
é outra
a dor que dói
em mim
é um projeto
de passeio
em círculo
um malogro
do objeto
em foco
a intensidade
de luz
de tarde
no jardim
é outra
outra a dor que dói

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

UM POEMA

Enzo Carlo Barrocco



Um poema: a manhã se levanta
com sua cara de sono
preguiçosamente inadiável.

A libido transformada em luz,
louca madrugada de orgasmos
e palavras pornográficas;
o suspiro e o riso profanados.

Preguiçosamente inadiável,
com sua cara de sono,
a manhã se levanta.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

LIBÉLULAS RUBRAS - 5ª Tríade



GUILLAUME APOLLINAIRE: UM POETA DE VANGUARDA


Guillaume Apollinaire
Roma 1880 – Paris 1918
Poeta, novelista, ensaísta e crítico de arte francês nascido na Itália


LAÇOS

Cordas feitas de gritos
Sons de sinos através da Europa
Séculos enforcados
Carris que amarrais nações
Não somos mais que dois ou três homens
Livres de todas as peias
Vamos dar-nos as mãos

Violenta chuva que penteia os fumos
Cordas
Cordas tecidas
Cabos submarinos
Torres de Babel transformadas em pontes

Aranhas-Pontífices
Todos os apaixonados que um só laço enlaçou

Outros laços mais firmes
Brancas estrias de luz
Cordas e Concórdia

Escrevo apenas para vos celebrar
Ó sentido ó sentidos caros
Inimigos do recordar
Inimigos do desejar

Inimigos da saudade
Inimigos das lágrimas
Inimigos de tudo o que eu amo ainda

Tradução de Jorge de Sena

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

O JEJU


Miniconto
por Enzo Carlo Barrocco

Paulinha com uma bacia de roupa passou para o igarapé. Zé Antônio que observa a seguiu. Deu a volta e escondeu-se para cima do barranco atrás de um tronco. Esperou e esperou até que Paulinha terminasse tudo. Por fim a moça tirou toda a roupa e desapressadamente mergulhou. O Zé, evidentemente, tinha medo de ser flagrado ali, pois seria eternamente chamado de Jeju (peixe abundante nos rios amazônicos), apelido que tomam os que são pegos nessa situação. Que corpo lindo! Após, saiu da água para se ensaboar. Sem querer, Zé Antônio fez um ruído; Paulinha, com o sabão no corpo, levantou a cabeça perscrutando em volta. Devia ser um lagarto qualquer, pensou. Zé Antônio enlouqueceu quando Paulinha ensaboou delicadamente o sexo; afastara até um pouco a perna. O desajustado Zé ouviu vozes para o caminho de cima e, mais que depressa, esperou ao largo. Quando voltou Paulinha se fora. Broco, o cachorro do velho Bena, à beira d´água, saciava a sede.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

JIRAU DI/VERSO nº 11

JIRAU DI/VERSO
Nº 11 – janeiro.2007
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia catarinense de Cruz e Souza

O POEMA

LIRIAL

Vens com uns tons de searas,
De prados enflorescidos
E trazes os coloridos
Das frescas auroras claras.

E tens as nuances raras
Dos bons prazeres servidos
Nos rostos enlourecidos
Das parisienses preclaras.

Chapéu das finas elites,
De rosas e clematites,
Chapéu Pierrette — entre o sol

Passeando, esbelta e rosada,
Pareces uma encantada
Canção azul do Tirol.

O POETA

João da Cruz e Souza (Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis 1861 – Barbacena, MG 1898) poeta e jornalista catarinense. Um dos três maiores poetas simbolistas do mundo, ao lado do alemão Stefan George e do francês Stéphane Mallarmé, Cruz e Souza, já no Rio de Janeiro, colabora em alguns jornais e, mesmo após a publicação de Missal e Broquéis, em 1893, só consegue um emprego miserável na Estrada de Ferro Central. O poeta negro morreu jovem, aos 36 anos, vítima da tuberculose, no entanto, em sua breve passagem, deixou um legado inestimável a nossa literatura.

***

ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis

“Os irmãos inimigos” (romance)
Autor: Nikos Kazantzakis
Edição: Nova Fronteira
Romance póstumo no qual Kazantzakis expõe toda a sua angústia pela proximidade da morte. A fé questionada sob a aguçada e atormentada alma deste genial escritor grego.

“Obras Literárias – Lendo o Pará 1 ” (poesia e teatro)
Autor: Tenreiro Aranha
Edição: SECULT / FCPTN
A poesia e o teatro produzidos no Pará na segunda metade do século XVII. Belo trabalho reeditado pelos órgãos de cultura do Governo do Estado para o conhecimento de agora.

“Assassinatos na Rua Morgue e Outras Histórias” (contos)
Autor: Edgar Allan Poe
Edição: L & PM Pocket
Alguns contos dos muitos escritos pelo poeta, contista, novelista e romancista americano. Incluídos aqui dois contos antológicos: “Nunca
Aposte sua Cabeça com o Diabo” e “O Gato Preto”.

***

A FRASE DI/VERSA

A sexualidade é um componente da boa saúde, inspira a criação e é parte do caminho da alma.
- Isabel Allende (Lima 1942) romancista chilena nascida no Peru

***

DA LAVRA MINHA

AS CORRESPONDÊNCIAS

Enzo Carlo Barrocco

As correspondências que sempre te envio
falam das cores dos meu versos acres,
não são cores vivas, tampouco álacres,
mando-as sempre por que em ti confio.

Mesmo assim, mando-as; antigos fósseis
que hoje exumo de sepulcros azuis
pois em cada carta meu sorriso pus,
serenas dores, companheiras dóceis.

Ponha sentido, meu prezado amigo,
esta é a última que estás lendo e queira
que com certeza seja a derradeira,

pois hoje, incrível, já perdi a conta
de quantas vezes já quebrei a ponta
da minha inestimável lapiseira.

MANOEL DE BARROS: O VELHO POETA MENINO


Manoel de Barros
Cuiabá 1916
Poeta mato-grossense

A NAMORADA

Havia um muro alto entre nossas casas.
Difícil de mandar recado para ela.
Não havia e-mail.
O pai era uma onça.
A gente amarrava o bilhete numa pedra presa por
um cordão
E pinchava a pedra no quintal da casa dela.
Se a namorada respondesse pela mesma pedra
Era uma glória!
Mas por vezes o bilhete enganchava nos galhos da goiabeira
E então era agonia.
No tempo do onça era assim.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 12

A linguagem dos humildes tem para mim um gosto de terra, de chão molhado e lenha partida.
- Cora Coralina (Goiás Velho 1889 – Goiânia 1985) poeta e contista goiana

Um cão faminto só tem fé na carne.
- Anton Tchekhov (Taganrog 1860 – Badenweiller, Alemanha 1904) contista, novelista e dramaturgo russo

Não tenhamos pressa. Mas não percamos tempo.
- José Saramago (Azinhaga 1922) romancista português

O verdadeiro leitor de poesia é mais raro que o poeta.
- Jorge Luis Borges (Buenos Aires 1899 – Genebra, Suíça 1986) poeta, contista e ensaísta argentino

Todas as vezes que canto amo tanto viver.
- Gilberto Gil (Salvador 1942) cantor, compositor e político baiano

O amor pode fazer um cão ladrar em versos.
- John Fletcher (Rye 1579 - Southwark, 1625) dramaturgo inglês

... Sou poeta
cada manhã que nasce me nasce
uma rosa na face.
- Paulo Leminski (Curitiba 1944 - Idem 1989) poeta paranaense

Noventa por cento dos políticos dão ao dez por cento restantes uma péssima
reputação.
- Henry Kissinger (Fürth 1923) político americano nascido na Alemanha

É preciso esquecer os homens para não odiá-los.
- André Suares (Marselha 1868 – Paris 1948) romancista francês

Sobre a cidade
A alva manhã se desprende
Com frugalidade.
- Enzo Carlo Barrocco (Tracuateua 1960) poeta, contista, cronista e pesquisador literário paraense

Muitas patifarias são erros de cálculos.
- Gabriel Sénac de Meilham (Versailles 1736 – Viena, Áustria 1803) ensaísta francês

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

SOL DE ACRÍLICO

Enzo Carlo Barrocco



Veja a rua,
meu poema-paralelepípedo
rijo e mau,
estende-se sob um sol de acrílico;
há uma dor pulando o muro gasto.

Pronto! Tudo é frágil
à sombra desimportante do meu
verso.
Sou o que seja...
Ave ribeirinha imóvel
à beira d'água.

ADEMIR BRAZ: UM POETA DAS BANDAS DO NORTE


Ademir Braz
Marabá 1947
Poeta e jornalista paraense

ESTIAGEM

Ensolarada e súbita cai a manhã gloriosa.
Fino ouro interminável, goivos de luz e azul
sobre telhados de ocre esparge o retinto anil.

Azul despenca uma folha: sanhaçu voraz – o dia.
Ágil peixe entre centauros, frescor de corpos – o dia.

Vês essa trama do tempo?
Vês essa carne volátil?
Ela retesa e tece
em torno às moscas das horas
a cintilante voragem.

Ó encantamento blue... Ah, desamor, desamor !...
À falta de teus orgasmos, colho esses tristes orvalhos...

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

O BASHÔ BAIXOU NA POMPÉIA – OS HAI-KAIS INTIMISTAS DE LÚCIA SANTOS

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco


“Uma Gueixa...”: hai-kais à moda ocidental.

A poeta Lúcia Santos lançou no mês de fevereiro deste ano o livro “Uma Gueixa Para Bashô” (Editora Babel, 2007), que conta com 62 hai-kais. Este pequeno poema de origem japonesa que teve como seu idealizador o poeta Matsuo Munefusa, o Bashô (Yedo, atual Tókio 1644 – Osaka 1694), consiste de 3 versos com 17 silabas poéticas, tratando sobre as estações do ano. Muitos poetas hoje, principalmente os ocidentais, fogem a essas regras inflexíveis, dando formas menos ortodoxas ao hai-kai. Os pequenos textos eróticos de Lúcia, por sinal, fogem completamente à filosofia do gênero. No entanto, é nessa linha que Lúcia trabalha buscando a síntese o que para ela se tornou um desafio. A poeta começou a se interessar pelo hai-kai depois de uma leitura da biografia de Bashô escrita pelo poeta paranaense Paulo Leminski (Curitiba 1944 – Idem 1989). Lúcia se apaixonou pela síntese do estilo e desde aí (início da década de 1990) começou a escrever essa modalidade. Segundo a crítica, o livro saiu maduro e esmerado no qual a delicadeza unida à precisão dos poemas virou marca registrada. O crítico literário Paulo Melo Sousa afirma que “os textos não são, na acepção do termo, hai-kais sob a formatação clássica, são na verdade, poemas curtos nos quais a temática é livre, aberta, mas onde a contenção e a densidade foram exaustivamente exploradas”. Aliás, o livro conta com a apresentação de algumas celebridades tais como, Alice Ruiz, Sérgio Natureza, Celso Borges e Chico César. A própria poeta adverte sobre o seu mais recente livro que “pode parecer, ao leitor menos avisado, à primeira vista, que o poema curto é mais fácil de fazer, mas nós sabemos que não é assim, pois temos que dizer tudo o que queremos com o mínimo de palavras, em três versos da forma mais enxuta possível. Meus poemas publicados nos livros anteriores eram mais longos, embora já existisse uma tendência para textos mais simétricos: hoje em dia, já possuo domínio da técnica e já tenho material para outro livro de hai-kais, que pelo menos eu chamo de hai-kais, pois essa denominação é questionável”. Lúcia, inclusive, é irmã do cantor e compositor Zeca Baleiro (Arari, MA 1966). Experimente Lúcia Santos, a maranhense que atualmente mora no bairro da Pompéia, em São Paulo, e que chegou de vez à literatura brasileira.

**

TRÊS HAI-KAIS DO LIVRO "UMA GUEIXA PARA BASHÔ"

em tua mão destra
meu violino só

vira orquestra

*
uma trepada em vão
melhor que nada
pior que a solidão

*
eu e eu e este agosto
meu amor só a sol
posto


terça-feira, 9 de outubro de 2007

PÉROLAS DE CARANANDUBA - CANTO Nº 3






ADEMIR DEMARCHI: UM POETA DAS BANDAS DO SUL


ADEMIR DEMARCHI
Maringá 1960
Poeta, ensaísta e jornalista paranaense

O Ciclone de Théophile

O ciclone embora Théophile lhe seja surdo
Também ameaça-me os camafeus
Assim mesmo porém o amo
Terrificante e belo a espiralar-me o
peito
Em sua sina de profícuo signo
Lar agradável, oásis da pira arte
A anular todas as coisas vis
Apesar das quais a palavra arde.

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

POR DEBAIXO DE ACHAS

Miniconto

por Enzo Carlo Barrocco


À noitinha eu, meu pai e dois irmãos fomos visitar o professor Joaquim que caíra doente na terça-feira. O fato é que o professor, querendo economizar algum dinheiro, resolveu ele próprio derrubar árvores com a finalidade de confeccionar cavacos para a cobertura da casa que estava estragada. Com um machado às mãos, o professor cortava o tronco de um açacu quando, subitamente, a árvore vergou e, em seguida, veio abaixo e os últimos galhos pegaram o professor que corria atarantado. A situação apontava para remédios caseiros já que a localidade de cinco casas situava-se longe de tudo e de todos. Quando saímos de lá meu pai comentou: é! o professor Joaquim “está por debaixo de achas!”.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

POETAS

Enzo Carlo Barrocco



Agora que estamos plenos de loucura
sob este sol que se deita entre nós,
vaguemos; espíritos tardios de versos
que semeiam luzes nas varandas.

Esses hospícios de almas neuróticas
abrem tarde suas vítreas portas;
não falemos de estrelas e de manhãs
como doem nossas mãos aduncas.

Sejamos muitos, o tempo é conciso
e nos espera à cancela lilás do dia.
Porém fiquemos calmos, taciturnos,

que a palavra nasce a cada instante;
outros de nós apontam no caminho,
outros de nós abraçam a eternidade.


TORQUATO NETO: O POETA TROPICALISTA


Torquato Neto
Teresina 1944 – Rio de janeiro 1972
Poeta, compositor e jornalista piauiense


Um Cidadão Comum

Sempre subindo a ladeira do nada,
Topar em pedras que nada revelam.
Levar às costas o fardo do ser
E ter certeza que não vai ser pago.

Sentir prazeres, dores, sentir medo,
Nada entender, querer saber tudo.
Cantar com voz bonita prá cachorro,
Não ver "PERIGO" e afundar no caos.

Fumar, beber, amar, dormir sem sono,
Observar as horas impiedosas
Que passam carregando um bom pedaço
da vida, sem dar satisfações.

Amar o amargo e sonhar com doçuras
Saber que retornar não é possível
Sentir que um dia vai sentir saudades
Da ladeira, do fardo, das pedradas.

Por fim, de um só salto,
Transpor de vez o paredão.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

CASIMIRO DE ABREU: O ANJO ROMÂNTICO

José Marques Casimiro de Abreu poeta e dramaturgo fluminense (Barra de São João 1839 - Idem 1860), era filho de um rico comerciante e dono de terras no Estado do Rio de Janeiro. Estudou humanidades em Nova Friburgo, mas não chegou a concluir o curso, pois foi obrigado a se dedicar ao comércio. Esse episódio o deprimiu muito. Entre 1853 e 1857 viveu em Lisboa onde encenou sua peça “Camões e o Jaú” que, inclusive, obteve certo êxito, embora Casimiro fosse eminentemente poeta. De volta ao Brasil, novamente foi trabalhar no comércio da família. Em 1859, publica o volume de poesias “As Primaveras” com o apoio financeiro do pai. O poeta, depois que voltou ao Brasil, começou a levar uma vida desregrada. Diante disso, o poeta contraiu tuberculose e veio a falecer com apenas 22 anos de idade. O amor expresso em seus poemas é sempre impossível, platônico e idealizado. A saudade é um sentimento bastante cultivado nos versos do poeta, acentuada pela distância da pátria e da família, assim como o lamento da infância perdida. A grande maioria dos críticos torce o nariz para o trabalho de Casimiro, entretanto, no meu entender, a literatura brasileira deve muito a este poeta terno, delicado e inspirado que deixou seus poemas em apenas um livro. O poeta pertence à segunda geração do Romantismo, denominada Byroniana ou Mal do Século. Fiquemos, portanto, com três raríssimas jóias produzidas pelo vasto universo da mente de Casimiro.

TRÊS CANTOS

Quando se brinca contente
Ao despontar da existência
Nos folguedos de inocência,
Nos delírios de criança;
A alma, que desabrocha
Alegre, cândida e pura —
Nesta contínua ventura
É toda um hino: — esperança!

Depois... na quadra ditosa,
Nos dias da juventude,
Quando o peito é um alaúde,
E que a fronte tem calor:
A alma que então se expande
Ardente, fogosa e bela —
Idolatrando a donzela
Soletra em trovas: — amor.

Mas quando a crença se esgota
Na taça dos desenganos,
E o lento correr dos anos
Envenena a mocidade;
Então a alma cansada
Dos belos sonhos despida,
Chorando a passada vida —
Só tem um canto: — saudade!


QUE É - SIMPATIA

Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
É o canto de passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'agosto
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é quase amor!

MEUS OITO ANOS

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida
Da minha infância querida
Que os anos não trazem, mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
—Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'alma

Que auroras, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia,
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberto o peito,
— Pés descalços, braços nus —
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo,
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

....

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!


terça-feira, 2 de outubro de 2007

JIRAU DI/VERSO nº 10

JIRAU DIVERSO
Nº 10 – dezembro.2006
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia uruguaia de Delmira Agustini

O POEMA

O INTRUSO

Amor, naquela noite trágica e soluçante
Cantou tua chave de ouro em minha fechadura;
E logo, a porta aberta sobre a sombra arrepiante,
Te vi como uma mancha de luz e de brancura.

Tudo me iluminaram teus olhos de diamante;
Beberam-me na taça teus lábios de frescura,
Na almofada pousaste-me a cabeça fragrante;
Amei-te o atrevimento e adorei-te a loucura.

E hoje rio se ris e canto se tu cantas;
Se dormes, durmo como um cão a tuas plantas!
Na própria sombra levo a tua recendente

Primavera; e, se a mão tocas na fechadura,
Tremo e bendigo a noite que -soluçante e escura-
Floriu na minha vida tua boca amanhecente.

Tradução: Anderson Braga Horta

A POETA

Delmira Agustini, (Montevidéu1887 – Idem 1914) poeta uruguaia. Embora tenha estudado música e pintura, foi na literatura que Delmira, realmente, se destacou, se tornando a maior voz feminina do modernismo uruguaio do início do século XX. Seus poemas eróticos e sensuais são lindíssimos. Em virtude de uma vida conjugal atribulada faleceu tragicamente assassinada por seu ex-marido que não aceitava a separação. Uma vida breve, no entanto intensa e dramática.

***

ESTANTE DE ACRÍLICO

Livros Sugestionáveis

“A Rosa Separada” (poesias)
Autor: Pablo Neruda
Edição: L & PM Editores
Neruda homenageia neste livro a fantástica ilha de Páscoa. O poeta fala das belezas naturais da ilha, tanto quanto dos homens que a habitam. Em edição bilíngüe.

“A Morte de Ivan Ilitch ” (novela)
Autor: Leon Tolstói
Edição: L & PM Editores
Com uma narrativa clara, Tolstói, neste trabalho, nos leva a uma reflexão. A agonia e o lento caminho para a morte de um burocrata que se depara, subitamente, com uma doença incurável.

“Antilogia” (poesias)
Autor: Ruy Barata
Edição: R.G.B. Editora / Secult
Neste livro bem se nota a escrita aguçada de Ruy. Excelentes poemas, com a musicalidade que só esse paraense de Santarém poderia conceber.

***

A FRASE DI/VERSA

Teu corpo claro e perfeito / - teu corpo de maravilha – / quero possuí-lo no leito / estreito da redondilha.
- Manuel Bandeira (Recife 1886 – Rio de Janeiro 1968) poeta, cronista e ensaísta pernambucano.

***

DA LAVRA MINHA


MAIS UM DIA, PORTANTO, ESTÁ CHEGANDO

Enzo Carlo Barrocco

Branca luz sobre as folhas
da madrugada,
o sol ainda não botou a cara ardente
sobre o mar.

Uns últimos insetos (lálias, duxas, vambratis)
vagam sob a luz dos postes.

Pelas casas pouca iluminação,
a lua lentamente vai embora,
outro dia, portanto, está chegando;
logo mais abramos as janelas.