terça-feira, 31 de julho de 2007

JIRAU DI/VERSO Nº 5


Nº 05 – Julho.2006
por Enzo Carlo Barrocco

A poesia senegalesa de Léopold Sédar Senghor

O POEMA

VISITA

Na escassa penumbra da tarde,
sonho.
Vêm me visitar as fadigas do dia,
os defuntos do ano, as lembranças da década,
como uma procissão dos mortos daquela aldeia
perdida lá no horizonte.
Este é o mesmo sol, impregnado de miragens
o mesmo céu que presenças ocultas dissimulam
o mesmo céu temido daqueles que tratam
com os que se foram.
Eis que a mim vêm os meus mortos.

* Tradução de Guilherme de Souza Castro

O POETA

Léopold Sédar Senghor (Joal-Fadiouth 1906 – Verson, França 2001 ) poeta, ensaísta e político senegalês. Embora tenha sido essencialmente poeta, Senghor também enveredou pelos caminhos do ensaio. Na França, para onde havia se mudado, foi feito prisioneiro pelos nazistas, à época da II Guerra Mundial. Em 1945, foi eleito deputado pelo Senegal, assim como, depois, seu primeiro presidente. A Academia Francesa de Letras o elegeu para as suas lides em 1983, sendo, portanto o primeiro africano a ocupar uma cadeira naquela Casa.

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Estante de Acrílico
Livros Sugestionáveis

“O Defunto e Outros Contos”
Autor: Eça de Queiroz
Edição: Editora Tecnoprint S.A.
Belíssimo livro. Eça e sua impressionante capacidade de contar histórias. “Singularidades de Uma Rapariga Loura”, “Frei Genebro” e “Suave Milagre” são preciosidades da literatura mundial.

“Vampiros Extraterrestres na Amazônia” (Ensaio)
Autor: Daniel Rebisso Giese
Edição do Autor
As supostas aparições de discos voadores na região Amazônica, principalmente na região nordeste do Pará, com relatos e fotos. Rebisso, ufólogo que é, trata o assunto com muita seriedade.

“E Todas as orquestras Acenderam a Lua” (Poesias)
Autora: Lília Silvestre Chaves
Edição: Imprensa Oficial do Estado do Pará
O sentimento feminino se encaixa perfeitamente em “Todas as...”, no que diz respeito ao romantismo. A alma feminina falando, gesticulando, amando...

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A FRASE DI/VERSA

“Caminhando e semeando, no fim terás o que colher”.
- Cora Coralina (Goiás Velho 1889 – Goiânia 1985) poeta e contista goiana


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DA LAVRA MINHA

Lua artesanal

Enzo Carlo Barrocco

Surgiu em mim
Igapó de trevas,
uma lua artesanal;
barro e mãos
à borda do poema.

Perde-se em mim a forma
a peça, o alguidar.
Matéria posta ao sol;
Frágil luz do dia
sobre o verso.

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE: A MAIS ALTA VOZ DA POESIA BRASILEIRA


Carlos Drummond de Andrade
Itabira 1902 - Rio de Janeiro 1987
Poeta, contista e cronista mineiro

Poema da purificação

Depois de tantos combates
o anjo bom matou o anjo mau
e jogou seu corpo no rio.

As água ficaram tintas
de um sangue que não descorava
e os peixes todos morreram.

Mas uma luz que ninguém soube
dizer de onde tinha vindo
apareceu para clarear o mundo,
e outro anjo pensou a ferida
do anjo batalhador.

O DIÁRIO DOS PENSADORES - PÁGINA 6


A guerra, que era antes o primeiro dos recursos, é hoje o último deles
e amanhã será um crime.
- José Marti (Havana 1853 – Dos Rios 1895) poeta, ensaísta e jornalista
cubano

Podemos curar qualquer mal com dois remédios: o tempo e o silêncio.
- Alexandre Dumas, Pai (Villers-Cotterêts 1802 - Puys, próximo de Dieppe 1870) romancista e dramaturgo francês

Toda arte é uma revolta contra o destino do homem.
- André Malraux (Paris 1901 - Verrières-le-Buisson 1976) romancista e ensaísta francês

Ao lidar com insanos o melhor método é fingir ser são.
- Herman Hesse (Calw 1877 – Montagnola, Suíça 1962) poeta e romancista alemão

As noivas modernas preferem conservar os buquês e jogar seus maridos fora.
- Groucho Marx (Nova York 1890 – Los Angeles 1977) ator comediante americano

Amor é algo que acontece entre homens e mulheres que não se conhecem.
- William Somerset Maugham (Paris 1874 – Nice 1965) contista, dramaturgo, romancista e ensaísta inglês nascido na França

Só não existe o que não pode ser imaginado.
- Murilo Mendes (Juiz de Fora 1901 – Lisboa 1975) poeta e ensaísta mineiro.

A mulher é o mais belo defeito da natureza.
- John Milton (Londres 1608 – Idem 1674) poeta inglês

A revolução não é sublevação contra a ordem preexistente, mas a implantação de uma nova ordem que vira a tradicional do avesso.
- José Ortega y Gasset (Madri 1883 – Idem 1955) filósofo e humanista espanhol

A vida é um espetáculo maravilhoso, mas nossos lugares não são bons e não entendemos o que estamos assistindo.
- George Clemenceau (Mouilleron-en-Pareds 1841 – Paris 1929) político, ensaísta e jornalista francês

Conserva-te calmo. Tudo acabará dentro de mais cem anos.
- Ralph Waldo Emerson (Boston 1803 – Concord 1882) poeta, filósofo e ensaísta americano

Convém, em certas ocasiões, ocultar o que se traz no coração.
- Jean-Baptiste Poquelin, o Molière (Paris 1622 – Idem 1673) dramaturgo e ator francês

quarta-feira, 25 de julho de 2007

UM PÁSSARO E UMA MANHÃ

Enzo Carlo Barrocco





















Há em mim um pássaro e uma manhã,
ambos luzentes,
pousados nas linhas poliacantas do meu verso.


Observam o dia posto sobre as casas,
riso e punhal,
passos desesperados sob nós.


Correm o tempo, as sombras e tudo o mais;
flores e ruas
esparzidas sobre foices e papéis.


Pousados nas linhas poliacantas do meu verso,
ambos luzentes,
há em mim um pássaro e uma manhã.

A ENGENHOSA PALAVRA DE JOAQUIM CARDOZO


Joaquim Cardozo
Recife 1897 - Olinda 1978
Poeta, dramaturgo e engenheiro pernambucano
AQUARELA
Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela;
Cheiro de chão que amanhece.
Estavas sob a latada
Quando te abri a janela.
Cheiro de jasmim laranja
Pelos jardins anoitece;
Junto a papoulas dobradas,
Num canteiro florescendo,
A tua saia singela.
Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...
Não sei se és tu, se eras outra,
Não sei se és esta ou aquela,
A que não quis nem me quer,
Fugindo sob a latada
Nessa tarde de aquarela.
Macaíbeiras chovendo
Cheiro de flor amarela...

LUAS DE AJURUTEUA - Canto nº 1






terça-feira, 17 de julho de 2007

RIOS ENVENENADOS- 1º Canto





































MENOTTI DEL PICCHIA: A POESIA DE UM MODERNISTA


Menotti Del Picchia
São Paulo 1892 - Idem 1988
Poeta, romancista, cronista, ensaísta, pintor e jornalista paulista
NOITE
As casas fecham as pálpebras das janelas e dormem.
Todos os rumores são postos em surdina,
todas as luzes se apagam.
Há um grande aparato de câmara funerária
na paisagem do mundo.

Os homens ficam rígidos,
tomam a posição horizontal
e ensaiam o próprio cadáver.

Cada leito é a maquete de um túmulo.
Cada sono em ensaio de morte.

No cemitério da treva
tudo morre provisoriamente.

ESTRELA E PIRILAMPO

Enzo Carlo Barrocco























Eu sempre fico com a primeira estrela,
estrela linda, estrela luz,
e nos meus lábios o azul de um anjo
que de tão pequeno num poema pus.

E a noite segue num caminho lácteo
com vastas roupas roçando o chão,
na gola alta um gnomo cáqui
e luas brancas na palma da mão.

É madrugada, quietude plena,
e os pirilampos em fragatas verdes
já se despedem da manhã serena

que há de vir. E meus poucos textos
entre o azul que se forma lasso
guardam segredos em pequenos cestos.

sexta-feira, 13 de julho de 2007

RESISTINDO A TODAS AS OPRESSÕES - DE REPENTE UMA FÁBULA ISRAELENSE


Capa do livro: De Repente nas Profundezas do Bosque

Resenha
por Enzo Carlo Barrocco

De Repente nas Profundezas do Bosque (Companhia das Letras, 2007, 148 páginas) é o novo livro do poeta, romancista e ensaísta israelense Amos Oz (Jerusalém 1939), um inconformado cidadão preocupado com os rumos tomados pela política de seu país. Neste mais novo trabalho, Amos Oz dá algumas alfinetadas no atual regime governamental de Israel criando uma história que diz bem o seu sentimento de inconformismo com as questões sociais. O livro se reporta à opressão, discriminação, violência, mostrando, entretanto, caminhos que levam à resistência a todos esses problemas. A história fala de um lugar paradisíaco onde não existe nenhum animal. Nas escolas é ensinado que todos os animais foram para o bosque, local terminantemente proibido e que, acredita-se, vive um misterioso demônio. O garoto Mati e sua amiga Maia, desconfiados com os donos do poder, resolvem entrar na floresta mesmo correndo todos os riscos. O questionamento é a principal função deste romance. Amos é um escritor que luta pela paz e em 2005 ele recebeu o prestigiado prêmio Goethe pelo seu irrepreensível sentido de responsabilidade moral do conjunto de sua belíssima obra. Politicamente Amos é ligado à esquerda israelense e participa ativamente do movimento “Israeli Peace Now” desde a sua fundação, em 1977. Diante de todas essas características Amos se vale do prestígio que detém em muitos países do mundo para denunciar, através de excelentes fábulas como esta. “De Repente nas Profundezas do Bosque” então é isso: uma fábula para mostrar a todos nós os bons caminhos que devamos seguir.

TRECHO DO LIVRO “DE REPENTE NAS PROFUNDEZAS DO BOSQUE”

CAPÍTULO I

A professora Emanuela explicou à classe como é um urso, como os peixes respiram e que sons a hiena produz à noite. Ela também pendurou na sala gravuras de animais e aves. Quase todos os alunos debocharam dela, porque nunca na vida tinham visto um animal sequer. E muitos deles não acreditaram que existissem no mundo tais criaturas. Pelo menos nas redondezas. Sem contar, disseram, sem contar que a professora não tinha conseguido encontrar na aldeia alguém que topasse ser seu marido, e por isso, disseram, a cabeça dela estava cheia de raposas, pardais, todo o tipo de invencionice que as pessoas sozinhas criam devido à solidão.

Só o pequeno Nimi, de tanto ouvir o falatório da professora Emanuela, começou a ter sonhos com animais à noite. A turma ria dele quando chegava contando, logo pela manhã, como seus sapatos marrons, que durante a noite ficam ao lado da cama dele se transformavam em dois ouriços que se arrastavam e examinavam o quarto a noite inteira, mas de manhã, quando ele abria os olhos, os ouriços voltavam de repente a ser um simples par de sapatos ao lado da cama. Numa outra vez, morcegos negros vieram à meia-noite, levaram-no sobre as asas e voaram com ele através das paredes da casa pelo céu da aldeia e por sobre os montes e os bosques, até que o conduziram a um palácio encantado.

Nimi era um menino um pouco descuidado, e andava quase sempre com o nariz escorrendo. Além disso, entre os salientes dentes da frente havia um belo intervalo. As crianças chamavam esse espaço de poço de lixo.

Todas as manhãs Nimi chegava à sala e começava a contar a todos um novo sonho, e todas as manhãs diziam-lhe chega, já ficou chato, fecha o teu poço de lixo. E quando ele não parava, atormentavam-no. Mas Nimi, em vez de ficar ofendido, também participava do deboche. Fungava e engolia o catarro, e começava de repente a chamar a si mesmo, numa alegria transbordante, exatamente pelos apelidos pejorativos que as crianças lhe deram: Poço de Lixo, Sonhador, Sapato-Ouriço.

Maia, a filha de Lília, a padeira, que sentava atrás dele na sala, cochichava algumas vezes: Nimi. Escuta. Você pode sonhar com o que quiser, com animais, com meninas, mas fique quieto. Não conte. Não vale a pena.

Mati dizia a Maia, você não entende, Nimi sonha só para contar os sonhos. E geralmente os sonhos dele não se interrompem nem quando ele acorda pela manhã.

Tudo divertia Nimi e tudo despertava nele alegria: a xícara rachada da cozinha e a lua cheia no céu, o colar da professora Emanuela e seus próprios dentes salientes, os botões que esqueceu de abotoar e o rugido dos ventos no bosque, tudo o que existe e acontece parecia engraçado a Nimi. Em todas as coisas via um motivo suficiente para se arrebentar de rir.

Até que uma vez ele fugiu da sala de aula e da aldeia, e entrou sozinho no bosque. Durante dois ou três dias, procuraram-no quase todos os aldeões. Por mais uma semana ou dez dias, procuraram-no os guardas. Depois, apenas seus pais e a irmã continuaram a procurar por ele.

Passadas três semanas ele voltou, magro e imundo, todo arranhado e machucado, mas relinchando de tanto entusiasmo e alegria. E desde então o pequeno Nimi não parou mais de relinchar e tampouco tornou a falar: não pronunciou nenhuma palavra desde que voltou do bosque, e só ficava circulando descalço e esfarrapado pelas ruelas da aldeia, o nariz escorrendo, mostrando os dentes e o intervalo entre eles, se metendo entre os pátios de trás, subindo nas árvores e postes, relinchando o tempo todo, com o olho direito lacrimejando sem parar por causa da sua alergia.

Era totalmente impossível voltar a freqüentar a escola por causa da "doença do relincho". As crianças, quando saíam da aula, provocavam-no intencionalmente, para que ele relinchasse. Eles o chamavam de Nimi, o potro. O médico esperava que isso fosse passar com o tempo: talvez ali, no bosque, ele tivesse se deparado com alguma coisa que o assustou ou abalou, e por enquanto está com a doença do relincho.

Maia dizia a Mati: será que eu e você deveríamos fazer alguma coisa? Como podemos ajudá-lo? E Mati respondia: deixa pra lá, Maia. Daqui a pouco eles vão se cansar disso. Daqui a pouco eles vão esquecê-lo.

Quando as crianças lhe davam um chega-pra-lá com zombarias, e atiravam pinhas e cascas sobre ele, o pequeno Nimi corria, relinchando. Subia bem alto nos galhos da árvore mais próxima e de lá, em meio às ramagens, se voltava para eles relinchando, com um olho lacrimejando e os dentes da frente salientes. E às vezes, até no meio da noite alta, parecia que se ouvia ao longe o eco de seu relincho no escuro.