segunda-feira, 31 de dezembro de 2007

OS DIAS APRESSADOS

Enzo Carlo Barrocco




















Poderás não dar a merecida atenção,
que a tua pressa é maior,
aos dias que o silêncio te reserva;
a indelével ferocidade das pessoas.

Por todos os meios
o povo se desloca para um determinado fim;
o dinheiro move os teus miolos,
todos os movimentos gotejam suor. 

É, meu caríssimo amigo,
movimenta-te o mais que puderes,
quem poderá te salvar da miséria
tem uma úlcera sob a língua.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

A POÉTICA MINEIRA EM BRUNA PIANTINO

Balões

Bruna Piantino
Betim 1978
Poeta mineira

Por não perceberem a gravidade
Milhões de balões de ego
Sobrevivem elevados.

Quanto ao interior
Nenhum gás
Habita mais.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2007

A BOLSA DO GENIVAL

Miniconto

por Enzo Carlo Barrocco





















O velho Genival era daquelas pessoas desconfiadas e arredias com pessoas estranhas, mas com os conhecidos se tornava falante, ainda mais se estivesse com “duas” na cabeça. Certo dia deixou a bolsa tiracolo no banco comprido da sala do casal de irmãos Nogueira, solteirões convictos, enquanto ia ao igarapé tomar banho. Só Dona Regina, velha solteirona estava na casa. O enfezado Genival voltava do banho quando ouviu o velho Rinaldo, que havia retornado, perguntar: de quem é essa “borsa”? A irmã respondeu: é de “Genivalo” O pessoal da família Nogueira sempre acrescentava “O” no final das palavras terminadas em “L”. Genival, ignorante por toda a vida, apanhou a bolsa e foi embora sem, ao menos, se despedir, resmungando que pela frente o chamavam de “seu” Genival, mas por trás o chamavam apenas de Genival. Os dois velhos estupefatos entreolharam-se enquanto o desfeiteado sumia na curva do caminho.
 

quarta-feira, 26 de dezembro de 2007

SONETO DE DESASSOSSEGO

Enzo Carlo Barrocco





















A tarde flui lentamente,
nuvens com morosidade,
desassossego somente
no azul da minha saudade.

Meu poema inconsequente
jamais dirá a verdade.
O tempo passa inclemente
deixando, apenas, saudade.

Só falo o que vem na mente,
vou morrer, só não sei quando
mas enquanto for o meu verso

essa viva luz derramando
nesta nau inconsistente
serei uma ave cantando...

ROSÁRIO FUSCO: O POETA ESCALAFOBÉTICO



Rosário Fusco de Souza Guerra (São Geraldo 1910 – Cataguases 1977), poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta, jornalista e crítico literário mineiro foi, para muitos, o verdadeiro precursor do realismo fantástico. Rosário era dotado de um humor polêmico e agitado, tendo vivido os seus 67 anos de forma intensa e apaixonada. Integrante do chamado “Movimento Verde”, editou, em 1927 uma revista com o mesmo nome do Movimento juntamente com Enrique Rezende, Guilhermino César, Francisco Inácio Peixoto  e Ascânio Lopes. O modernismo influenciou, sobremaneira, o escritor  que, ao morrer, deixou inúmeros escritos inéditos.


Rosário Fusco
São Geraldo 1910 - Cataguases 1977
Poeta, dramaturgo, romancista e ensaísta mineiro


CARPRICORNEANAS

É no seio
que começa o caminho
do veio,
que fica no meio
do continente,
onde medram florestas (nunca virgens),
odores variados, carúnculas curtidas
em saliva, espasmos inefáveis e
micróbios letais em vinagrete

II

Deita
e não te movas,
Por enquanto,
Deixa que o planeta invente,
por nós,
posições fundadas na hora,
inaugurais e precursoras.
Sem atritos ferozes,
Hiperêmicos,
Mas parcos e sinceros gemidos cavos,
Lubrificaremos os mancais do mundo
Na eternidade de segundos:
- juntos.
(...)


O CANTO NOTURNO DAS ALMAS LIVRES

Enzo Carlo Barrocco






















O canto noturno das almas livres
ecoa sobre os muros concebidos
pelas mãos decrépitas de anjos,
anjos negligentes, imprecisos... 

Por ora um silêncio aterrador
no deserto lúgubre da rua
varre os lábios cálidos das horas.

Esta solidão que insinua
a frágil madrugada que se segue;
estrada ladeada de reclamos

- o canto noturno das almas livres.
O tempo se apressa, corre a noite
desapercebida dos mistérios
que nem mesmo nós, sequer, notamos.